Cérebro social: por que a opinião dos outros importa tanto na adolescência

Por que aceitação, rejeição e curtidas pesam tanto na adolescência, e o que as pesquisas em neurociências indicam sobre o cérebro social.

Glaucio Aranha sorrindo, à direita, sobre fundo azul-escuro com silhuetas de jovens e ícones de redes sociais; à esquerda, o título "Cérebro social: por que a opinião dos outros importa tanto na adolescência".

Cérebro social? Sim, é isso mesmo que você leu. E sim, é uma metáfora. O termo se refere a algumas situações que acho que você já conhece. Sabe quando você posta uma foto e, alguns minutos depois, verifica se alguém ou quem curtiu? Ou quando você entra em uma sala e percebe rapidamente quem está olhando para você? Ou ainda quando um comentário é feito por um amigo e fica na sua cabeça durante horas, enquanto uma crítica semelhante feita por um desconhecido talvez seja esquecida rapidamente? Bem, em alguns momentos, ser deixado de fora de um grupo parece ter uma importância enorme. Em outros, receber a aprovação só das pessoas que importam para você pode mudar completamente o seu dia. Se essas situações parecem familiares (e quem não passou por algo semelhante?), há uma razão para isso: durante a adolescência, as relações sociais ganham novas dimensões, enquanto o cérebro continua modificando a maneira como processamos informações sobre nós mesmos e sobre as outras pessoas.

Então quer dizer que os adolescentes seriam simplesmente mais preocupados com a opinião alheia? Não! A questão é mais interessante do que esse tipo de reducionismo. O que acontece é que a adolescência constitui um período no qual aumenta a autonomia em relação à família, surgem novas formas de amizade, os grupos passam a desempenhar funções diferentes e relações afetivas se tornam progressivamente mais complexas. Nesse contexto, compreender o que os outros pensam, perceber sinais de aceitação ou rejeição e aprender como agir em diferentes grupos tornam-se tarefas especialmente relevantes. E o cérebro participa ativamente dessas transformações.

Mas, afinal, existe ou não um “cérebro social”?

Sim, essa expressão existe e, quando os neurocientistas a utilizam, estão se referindo a um conjunto de regiões e redes cerebrais envolvidas em processos como reconhecer emoções, imaginar o que outra pessoa pode estar pensando, interpretar intenções, avaliar informações sociais e refletir sobre nós mesmos em relação aos outros.

Em termos neurobiológicos, entre as regiões envolvidas nesse processo encontram-se áreas do córtex pré-frontal medial, a junção temporoparietal, partes do sulco temporal superior, a ínsula, o córtex cingulado anterior e estruturas relacionadas ao processamento de recompensa, como o estriado ventral. Entretanto, nenhuma delas funciona isoladamente como um “centro da amizade”, “área da rejeição” ou “região da popularidade”, nem tampouco são um “cérebro” à parte do que conhecemos. O comportamento social emerge da atividade coordenada de diferentes sistemas cerebrais, interagindo ainda com experiências anteriores, características pessoais e circunstâncias sociais.

Durante a adolescência, vários componentes dessas redes continuam apresentando transformações estruturais e funcionais. Ao mesmo tempo, aumentam as oportunidades de tomar decisões envolvendo outras pessoas. É necessário interpretar expressões, compreender ironias, perceber mudanças no comportamento dos amigos, imaginar como uma mensagem será recebida, decidir em quem confiar e ajustar o próprio comportamento a contextos sociais diferentes. Estudos desenvolvidos por Andrews, Ahmed e Blakemore (2021) sobre cognição social sugerem que essa combinação entre mudanças cerebrais e mudanças no ambiente social ajuda a compreender por que as relações entre pares adquirem tanta importância nessa etapa da vida.

Por que ser aceito importa tanto?

O ponto-chave está no fato de que pertencer a grupos sempre foi relevante para os seres humanos. Isto porque os grupos oferecem proteção, cooperação, troca de informações, aprendizagem e oportunidades de estabelecer relações, além de outros aspectos. Afinal, desde a Grécia Antiga o ser humano já era percebido como um animal social, como elaborado por Aristóteles na Política (Livro I, Capítulo 2), ao tratar do pertencimento do homem à pólis. Essa ideia foi, posteriormente, reelaborada por Rousseau. Durante a adolescência, porém, esse pertencimento passa por uma reorganização, enquanto os vínculos com colegas e amigos ocupam espaços crescentes na vida cotidiana.

A influência dos pares pode ser entendida dentro desse contexto. Amigos tendem a compartilhar maneiras de falar, gostos, comportamentos, opiniões e interesses, construindo referências comuns que ajudam a estabelecer a identidade do grupo. Uma ampla revisão das pesquisas sobre influência social na adolescência, desenvolvida por Laursen e Veenstra (2021), sugere que parte desse processo pode contribuir para aumentar a compatibilidade entre amigos e reduzir diferenças capazes de produzir afastamento ou exclusão.

Por isso, perceber o que os outros aprovam ou desaprovam fornece informação social. Quando você observa que determinado comportamento provoca risadas, reconhecimento, reprovação ou silêncio em um grupo, seu cérebro recebe pistas que podem orientar comportamentos futuros. Esse mecanismo participa da aprendizagem social ao longo de toda a vida, adquirindo características particulares durante a adolescência, quando novos grupos, códigos e formas de pertencimento estão sendo constantemente experimentados.

E por que a rejeição pode incomodar tanto?

Imagine chegar à escola e descobrir que todos os seus amigos foram convidados para uma festa, menos você, ou perceber que suas mensagens estão sendo ignoradas em um grupo. Já teve essa experiência? Bem, mesmo quando nenhuma agressão física ocorre, situações como essas podem produzir emoções intensas e nos marcar.

Experimentos de neuroimagem, realizados por Masten e colaboradores (2009), procuraram investigar o que acontece durante experiências simuladas de exclusão social. Em um estudo que se tornou referência nesse campo, adolescentes participaram, durante uma ressonância magnética funcional, de um jogo virtual no qual acreditavam estar interagindo com outros jovens. Em determinado momento, passaram a ser excluídos do jogo. Os resultados revelaram a associação deste tipo de experiência de vida com atividades nas regiões envolvidas no processamento de informações emocionalmente relevantes e na regulação das respostas à exclusão, incluindo a ínsula, partes do córtex cingulado e regiões pré-frontais.

Vamos, contudo, olhar para esses dados com cuidado, porque uma imagem cerebral, por si só, não permite afirmar exatamente “o que alguém está sentindo”, e uma mesma região cerebral pode participar de muitas funções diferentes. Ainda assim, o conjunto dos resultados indica que experiências de aceitação e rejeição mobilizam sistemas envolvidos na avaliação do significado social dos acontecimentos, permitindo compreender por que uma experiência aparentemente simples, como ser ignorado por um grupo, pode adquirir grande importância subjetiva.

O acúmulo de experiências anteriores também parece fazer diferença, pois pesquisas com adolescentes que apresentavam histórico de rejeição continuada pelos pares encontraram maior responsividade de regiões associadas à detecção e avaliação da exclusão social, sugerindo que nossa história de relações pode influenciar a maneira como situações sociais posteriores são processadas (Will et al., 2016).

Essa questão da natureza social do cérebro nos leva a pensar então em uma frase que aparece com frequência quando se fala sobre adolescência: “Quando estão com os amigos, adolescentes fazem coisas que não fariam sozinhos”.

Amigos fazem adolescentes tomarem decisões piores?

Há alguma evidência de que a presença e a opinião dos pares de fato podem modificar decisões, inclusive aumentando comportamentos de risco em determinadas circunstâncias. Entretanto, reduzir a influência dos amigos a uma fonte de decisões ruins deixaria de fora uma parte relevante da história, pois a sensibilidade às outras pessoas também pode aumentar comportamentos positivos. Aquela pesquisa anteriormente citada sobre desenvolvimento social, desenvolvida por Andrews, Ahmed e Blakemore (2021), indica que a presença de pares pode favorecer tanto escolhas arriscadas quanto comportamentos pró-sociais, dependendo das normas do grupo e da situação.

Deste modo, se o grupo valoriza estudar para uma prova, participar de um projeto, praticar um esporte, produzir arte, defender um colega ou participar de alguma causa, a influência social também pode atuar nessa direção positiva. Portanto, ser sensível aos pares constitui parte de um sistema de aprendizagem que permite compreender as regras e expectativas dos ambientes sociais dos quais participamos. Não sendo possível adotar um binarismo reducionista do tipo: é positivo ou é negativo. Aliás, como quase tudo na vida. A questão mais interessante talvez seja, portanto, entender o que determinado grupo recompensa, valoriza e transforma em sinal de pertencimento.

E quando o grupo está dentro do celular?

Aí a questão é de outra ordem, pois as redes sociais acrescentaram uma característica particular a esses processos: muitas formas de aprovação social passaram a ser quantificadas artificialmente: curtidas, seguidores, compartilhamentos, visualizações e comentários. Isso transforma parte da resposta das outras pessoas em números visíveis e em discurso com efeito de convencimento.

Em um experimento realizado com adolescentes, Lauren Sherman e colaboradores (2016) criaram uma situação semelhante ao Instagram, enquanto os participantes realizavam exames de ressonância magnética funcional. Os jovens tinham maior probabilidade de curtir fotografias que já apareciam acompanhadas de muitas curtidas, sendo este um dado que confirma alguns estudos clássicos da psicologia e da teoria da comunicação sobre o efeito de conformidade (ou conformismo) (Asch, 1955) e o efeito de contágio social / prova social (conhecido popularmente como efeito manada ou bandwagon effect) (Cialdini, 2012). Além disso, as imagens apresentadas como populares estavam associadas a maior atividade em regiões envolvidas em recompensa, atenção e processamento social.

Isso ajuda a explicar por que números aparentemente simples podem adquirir significado. Uma curtida não constitui apenas um pequeno símbolo na tela. Dependendo do contexto e da pessoa que a oferece, ela pode funcionar como informação sobre reconhecimento, aprovação ou pertencimento.

Há, entretanto, grandes diferenças entre adolescentes. Uma mesma experiência digital pode ser quase irrelevante para uma pessoa e extremamente significativa para outra. Estudos recentes vêm mostrando justamente que características individuais relacionadas à sensibilidade a recompensas sociais podem influenciar a relação entre utilização das redes sociais e experiências emocionais cotidianas (Politte-Corn et al., 2024).

Por essa razão, afirmações como “as redes sociais fazem mal ao cérebro adolescente” explicam muito pouco. A frequência de uso, o tipo de interação, o conteúdo consumido, as características do grupo, as experiências anteriores, o contexto familiar e as diferenças individuais precisam ser considerados. Estudos longitudinais encontraram associações entre a frequência habitual de checagem das redes e mudanças, ao longo dos anos seguintes, na responsividade cerebral à antecipação de informações sociais, embora os próprios autores ressaltem que ainda são necessárias pesquisas para compreender o significado dessas associações e estabelecer suas possíveis relações causais (Maza et al., 2023).

Então somos controlados pela opinião dos outros?

Esse tipo de afirmação é muito forte e contundente, mas muito incompleta. Acontece que nossas escolhas são o resultado da interação entre inúmeras influências, dentre as quais família, amigos, escola, cultura, mídia, experiências anteriores, objetivos pessoais e circunstâncias do momento, que participam da construção das decisões. Logo, dizer que “o inferno são os outros” só vale pra frase de efeito, sem relação com uma reflexão mais fundamentada. O que nós temos por certo, hoje, é que durante a adolescência, enquanto ocorre uma ampliação da vida social e da autonomia, aprender a navegar essas influências constitui parte do próprio desenvolvimento, com riscos e cautelas envolvidos.

Assim, perceber a influência dos outros pode, inclusive, aumentar nossa capacidade de decidir. Antes de compartilhar uma publicação apenas porque todos estão compartilhando, entrar em uma discussão porque os amigos entraram ou aceitar um desafio para demonstrar pertencimento ao grupo, seria possível perguntar: eu faria isso se ninguém estivesse olhando? Essa pergunta não elimina a influência social, mas pode torná-la mais visível.

Ao mesmo tempo, reconhecer que outras pessoas importam não deveria ser entendido como um sinal de fraqueza. Afinal de contas, somos uma espécie profundamente social (não é mesmo?), aprendendo continuamente a partir das nossas relações. Durante a adolescência, esse sistema encontra um ambiente particularmente intenso de experimentação, no qual amizades, grupos, identidade e reconhecimento estão sendo reconstruídos.

Talvez seja justamente por isso que a opinião dos outros possa parecer tão importante nessa fase. Enquanto aprendemos quem somos, também estamos descobrindo quem somos diante dos outros, com os outros e dentro dos diferentes grupos aos quais pertencemos.

Por tudo isso, é bom ter em mente, da próxima vez que receber uma curtida, ler um comentário, bem como ouvir a opinião de um amigo, que todos esses gestos de comunicação podem afetar a maneira como você se sente. Vale a pena, portanto, passar a observar três coisas: quem produziu a reação que estamos tendo, por que a opinião dessa pessoa importa e o que essa resposta significa efetivamente para o seu sentimento de pertencimento. Você talvez descubra que compreender o cérebro social também é uma maneira de compreender melhor as relações que construímos com a vida.

Referências

ANDREWS, Jack L.; AHMED, Saz P.; BLAKEMORE, Sarah-Jayne. Navigating the social environment in adolescence: the role of social brain development. Biological Psychiatry, v. 89, n. 2, p. 109-118, 2021. DOI: 10.1016/j.biopsych.2020.09.012.

ASCH, Solomon E. Opinions and social pressure. Scientific American, v. 193, n. 5, p. 31-35, 1955.

CIALDINI, Robert B. As armas da persuasão. Tradução de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

LAURSEN, Brett; VEENSTRA, René. Toward understanding the functions of peer influence: a summary and synthesis of recent empirical research. Journal of Research on Adolescence, v. 31, n. 4, p. 889-907, 2021. DOI: 10.1111/jora.12606.

MASTEN, Carrie L. et al. Neural correlates of social exclusion during adolescence: understanding the distress of peer rejection. Social Cognitive and Affective Neuroscience, v. 4, n. 2, p. 143-157, 2009. DOI: 10.1093/scan/nsp007.

MAZA, Maria T. et al. Association of habitual checking behaviors on social media with longitudinal functional brain development. JAMA Pediatrics, v. 177, n. 2, p. 160-167, 2023. DOI: 10.1001/jamapediatrics.2022.4924.

POLITTE-CORN, Madison et al. Neural reactivity to social reward moderates the association between social media use and momentary positive affect in adolescents. Affective Science, 2024. DOI: 10.1007/s42761-024-00237-1.

SHERMAN, Lauren E. et al. The power of the Like in adolescence: effects of peer influence on neural and behavioral responses to social media. Psychological Science, v. 27, n. 7, p. 1027-1035, 2016. DOI: 10.1177/0956797616645673.

WILL, Geert-Jan et al. Chronic childhood peer rejection is associated with heightened neural responses to social exclusion during adolescence. Journal of Abnormal Child Psychology, v. 44, p. 43-55, 2016. DOI: 10.1007/s10802-015-9983-0.


Sobre esta publicação

Este texto foi publicado originalmente em 28 de outubro de 2026 na seção NeuroTeen, de Ciências e Cognição, e é reproduzido aqui com autorização: https://cienciasecognicao.org/neuroteen20260903/.

Como citar

ARANHA, Glaucio. Cérebro social: por que a opinião dos outros importa tanto na adolescência. Glaucio Aranha, 28 out. 2026. Disponível em: https://glaucioaranha.com/2026/10/28/cerebro-social-opiniao-dos-outros-adolescencia/.


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