Tenho acompanhado com interesse as transformações promovidas pelas universidades chinesas, observando a expansão de programas relacionados à inteligência artificial, à robótica, aos circuitos integrados e à biotecnologia, enquanto cursos existentes são revistos, reunidos ou redesenhados. O movimento me impressiona por sua escala e pelo modo como as prioridades científicas e sociais parecem estar provocando reorganização institucional, levando-me a pensar que este quadro ultrapassa o contexto chinês. Parece-me que o lugar destinado às humanidades em universidades cujo presente passa a ser formulado por meio da tecnologia está se estreitando.
A questão que me provoca está centrada no fato de que a inteligência artificial já interfere hoje nos critérios pelos quais certos conhecimentos são considerados atuais, úteis ou socialmente necessários. Em face da capacidade de sistemas produzirem textos, imagens, traduções e análises, as profissões e as expectativas dirigidas à formação universitária acabam sendo impactadas, modificando-se. Diante disso, a universidade precisa responder a transformações imediatas, formando pessoas para um futuro que ainda não consegue sequer conhecer com precisão.
Atualmente, percebo a China como uma espécie de interlocutora entre dois paradigmas, como um campo de experimentação em processo. Suas mudanças dão visibilidade, em escala ampliada, a uma série de dilemas que também atravessam universidades brasileiras, europeias e norte-americanas: a relação entre formação e emprego, a atualização curricular, a integração entre áreas e o lugar dos conhecimentos cuja contribuição social não se deixa reduzir a indicadores de produtividade.
O sentido das “novas humanidades”
Adoto aqui “novas humanidades” como tradução interpretativa de xin wenke, expressão frequentemente transposta para o inglês como New Liberal Arts e, em determinados contextos, como New Humanities and Social Sciences (Wang; Tian, 2019). Como o termo “artes liberais” não é corrente no português, optei por traduzi-lo, a partir do inglês, como “humanidades”. Assumindo o risco de perder eventuais nuanças do termo chinês wenkeem face da barreira linguística, porém entendendo, por outras leituras, que abrangeria, no sistema universitário chinês, campos como filosofia, literatura, história, economia, gestão, direito, educação e artes, aos quais se articulam a comunicação e outras áreas das ciências sociais aplicadas (China, 2022).
Com base no texto de Wang e Tian (2019), a proposta de “novas humanidades” começou a adquirir maior visibilidade institucional na China, a partir de 2018, sendo posteriormente sistematizada pela Declaração para a Construção das Novas Humanidades, apresentada durante a Conferência Nacional sobre a Construção das Novas Humanidades, realizada em novembro de 2020 (China, 2020).
O projeto associa renovação curricular, interdisciplinaridade, valorização cultural e resposta às transformações científicas, tecnológicas e sociais (China, 2020). Entre os princípios apresentados encontram-se a preservação acompanhada de inovação, a orientação por valores e a implementação diferenciada, considerando as características das instituições e dos campos de conhecimento (China, 2020; China, 2022). As diretrizes também destacam a otimização dos cursos, o aprimoramento dos sistemas curriculares, a criação de novos modelos formativos e a integração das humanidades e das ciências sociais com as tecnologias da informação, as ciências naturais, as engenharias, a agricultura e a medicina (China, 2022).
Vejo nesse conceito uma tentativa de retirar as humanidades de uma posição exclusivamente defensiva, inserindo-as no interior das transformações científicas e tecnológicas que reorganizam a universidade contemporânea. Uma formação em comunicação poderá incorporar análise de dados e inteligência artificial generativa, preservando a investigação das linguagens, das mediações e dos efeitos culturais das mídias. Uma formação em letras poderá dialogar com o processamento de linguagem natural e com a tradução assistida por sistemas computacionais, mantendo a interpretação histórica e intercultural como parte de sua especificidade. Essas possibilidades correspondem à orientação interdisciplinar das novas humanidades, mediante a qual se procura reorganizar fronteiras entre áreas e produzir novos objetos, métodos e modelos formativos (Wang; Tian, 2019; China, 2020). A integração, acredita-se, poderá gerar renovação intelectual, embora também possa produzir subordinação instrumental se as humanidades forem compreendidas tão somente como apoio periférico às prioridades tecnológicas, pois isto levaria à perda de parte de sua capacidade de formular problemas, interpretar valores e examinar criticamente os sentidos atribuídos ao desenvolvimento.
Uma reorganização curricular em grande escala
Segundo os resultados oficiais do processo de registro e aprovação dos cursos de graduação referentes a 2024, divulgados pelo Ministério da Educação da China, em abril de 2025 (China, 2025a), foram aprovadas 1.839 novas ofertas de cursos em instituições de ensino superior, enquanto 2.220 ofertas tiveram o ingresso de estudantes suspenso e 1.428 foram formalmente canceladas. Após esses ajustes, o sistema chinês reunia aproximadamente 62.800 ofertas de graduação distribuídas entre suas instituições. No mesmo processo, o Ministério atualizou o Catálogo de Cursos de Graduação das Instituições Regulares de Ensino Superior (China, 2025d), que passou a compreender 93 categorias e 845 tipos de cursos, incluindo 29 novos cursos, entre os quais educação em inteligência artificial, engenharia audiovisual inteligente e teatro digital.
O Plano de Ação para o Ajuste e a Otimização da Estrutura de Disciplinas e Cursos do Ensino Superior para 2025–2027 reforçou a expansão de áreas emergentes e interdisciplinares, a atualização dos conteúdos curriculares e a incorporação da inteligência artificial aos processos de ensino e aprendizagem (China, 2025c). Em movimento convergente, universidades chinesas ampliaram vagas em inteligência artificial, ciência e tecnologia da informação, engenharia, medicina clínica, circuitos integrados, biomedicina, saúde e novas energias, vinculando a formação superior às necessidades estratégicas nacionais (Reuters, 2025).
Vejo, nesse movimento, uma racionalidade compreensível, apontando para um país que pretende desenvolver tecnologias de fronteira e que, para isso, precisa formar pessoas capazes de sustentar ecossistemas científicos complexos. A intensidade das mudanças, entretanto, me é provocativa no sentido de pensar, necessariamente, sobre o risco de organizar currículos orientados por previsões econômicas, tendo em vista que a validade dessas pode ser bastante curta.
A inteligência artificial generativa acaba favorecendo uma confusão entre a atividade profissional e o campo de conhecimento. Hoje, uma máquina traduz, cria imagens ou redige relatórios, tendo se tornado uma ferramenta poderosíssima. Por um lado, pode parecer que as possibilidades abertas pelas IA estão levando à perda da razão de existência de suas áreas correspondentes e dos agentes destas (linguístas, artistas, analistas etc.). Essa conclusão, todavia, me parece crer na redução de um campo de conhecimento às tarefas mais imediatamente observáveis de uma profissão.
O processo de tradução, por exemplo, envolve uma sensibilidade para contextos, ambiguidades, memórias culturais, efeitos políticos e responsabilidades autorais. A tradução automatizada pode ser rápida e funcional, e isto é um fato inegável, mas permanece a necessidade de avaliar o que foi preservado, deslocado ou silenciado: as perdas imanentes a qualquer ato de decodificação e recodificação. A formação do tradutor poderá incorporar gestão de sistemas, curadoria terminológica e análise intercultural, tornando mais visível sua dimensão intelectual, mas o refinamento da tarefa para a dimensão sensível ainda não pode ser articulado pela máquina, sendo pouco possível que venha a ser.
O mesmo ocorre com fotografia, com o design e com a comunicação que não tenha por finalidade a mera transmissão de informação. O que faz um conto de Neil Gaiman ser o que é; uma peça de Shakespeare; uma reflexão filosófica e outros fenômenos humanísticos não é sua informação, mas a capacidade de transcender a informação, de estar dentro e fora da linguagem, ao passo que a máquina nunca pode atingir o “fora”. O “fora da linguagem” está na lágrima que escorre diante de uma cena, no medo ou na ânsia de vômito diante de uma determinada descrição, na necessidade de deixar um lugar ou fechar um livro, pois a linguagem comunica, paradoxalmente, algo incomunicável. A máquina não pode ocupar este “fora da linguagem” porque ela é linguagem. Geradores de imagens ampliam a produção visual, tornando mais urgente compreender autoria, autenticidade, testemunho e circulação. Sistemas que produzem textos exigem instrumentos para avaliar evidência, enquadramento e responsabilidade. Em vários casos, a automação amplia a complexidade das questões culturais que precisam ser investigadas, mas ela não é capaz de ir além do nível econômico, em sentido amplo, de substituir a condição humana e sua capacidade de dizer “além disso não é possível ir” por convicções éticas ou “apenas isso não me satisfaz” por questões existenciais.
Uma sociedade tecnológica depende de equipamentos, redes e laboratórios, dependendo igualmente de conceitos, narrativas, categorias jurídicas e memórias históricas. Essas formas de interpretação permitem compreender o que os sistemas fazem e deliberar sobre seus efeitos.
Modelos de linguagem participam de ambientes de produção de sentido, pois medeiam perguntas, respostas, traduções e classificações, reorganizando aquilo que se torna dizível, visível e recuperável, a dimensão do signo. Modelos desenvolvidos em diferentes ecossistemas linguísticos e institucionais tenderão sempre a expressar repertórios, ausências e prioridades distintas. O diálogo com a China torna-se relevante precisamente por essa razão. Os sistemas chineses de inteligência artificial, inseridos em uma tradição linguística e cultural própria, ampliam a diversidade do cenário tecnológico mundial e oferecem material para investigar como valores e conhecimentos são incorporados aos novos modelos. As novas humanidades poderiam reunir filosofia da tecnologia, comunicação, direito, artes, educação e ciência de dados, participando da definição dos problemas e da avaliação de seus impactos. O fato é que uma sociedade tecnológica depende de redes e laboratórios, mas depende igualmente de subjetividade e cultura, entendida aqui, no sentido lotmaniano, de um texto construído a partir da subjetividade de uma sociedade.
A universidade consegue antecipar o trabalho futuro?
Volto-me, então, para um ponto que ficou até o momento no meu horizonte de reflexão, mas ainda intocado neste texto: a aproximação entre currículo e necessidades profissionais como resposta à incerteza vivida por milhões de jovens no seu processo formativo. Um curso dura vários anos; ferramentas e funções profissionais podem mudar em poucos meses. Quanto mais estreitamente o currículo se organizar em torno de uma ocupação emergente, maior será seu risco de envelhecimento, de se tornar obsoleto imediatamente após ser trabalhado.
A formação técnica e superior precisará ser acompanhada por fundamentos conceituais, aprendizagem contínua, julgamento crítico e comunicação. A corrida contra a obsolescência, tal como a corrida contra o envelhecimento humano, está perdida antes mesmo de iniciada. A universidade orientada apenas pelas competências do presente poderá formar para um mercado que já se transformou. Por outro lado, aquela que ignorar as mudanças de seu tempo reduzirá sua participação social. Impõe-se, como desafio, a articulação dos conhecimentos de longa duração em relação aos espaços de experimentação.
Um campo de diálogo entre Brasil e China
Entendo que as novas humanidades oferecem um campo de interlocução com várias agendas contemporâneas importantíssimas, tais como: o uso crítico da inteligência artificial, comunicação científica e desinformação, ética dos dados neurais, tecnologias assistivas, acessibilidade etc. Muitas das quais me interessam muito. A experiência chinesa oferece escala tecnológica, planejamento e criação acelerada de programas interdisciplinares, o que a posiciona com destaque no atual cenário global. Por outro lado, a universidade pública brasileira reúne experiências em extensão, saúde coletiva, participação comunitária e análise das desigualdades que trazem tanto aproximações quanto contrapontos e desafios em relação à realidade chinesa. Uma cooperação produtiva poderia colocar essas tradições em relação, construindo problemas comuns sem pressupor a reprodução de um modelo pelo outro; e, principalmente, respeitando as diversas diferenças e/ou divergências culturais.
A aproximação acadêmica exige uma linguagem que combine franqueza e respeito. Podemos discutir instrumentalização, produtividade e autonomia disciplinar, reconhecendo a densidade do projeto das novas humanidades e sua tentativa de responder a transformações que atingem todos os sistemas universitários. A crítica torna-se mais consistente quando reconhece o interlocutor como produtor de conceitos e participante do debate.
Afinal, que humanidades serão “novas”?
Na verdade, ao observar as transformações em curso, vejo um campo de experimentação se abrindo. A reorganização de cursos, as formações híbridas e a incorporação da inteligência artificial sugerem que a universidade chinesa procura redefinir sua posição diante de mudanças científicas, econômicas e culturais cuja direção permanece aberta.
A novidade, dificilmente, será garantida pela simples presença de ferramentas digitais. O fato é que um currículo pode incorporar inteligência artificial e conservar práticas fragmentadas, tanto quanto um curso tradicional pode produzir reflexão contemporânea quando reorganiza seus problemas. As novas humanidades dependerão, a meu ver, da capacidade de formulação de perguntas adequadas ao presente, preservando profundidade histórica e responsabilidade pública, o que não é uma tarefa simples.
Parece-me, por fim, que as contribuições das “novas humanidades” ainda estão por florescer, e somente quando participarem do interior da universidade tecnológica, influenciando sistemas, currículos e políticas de forma integrada é que teremos um cenário mais nítido. A principal provocação me parece ser o fato de que precisaremos de engenheiros capazes de compreender linguagens e contextos, de profissionais da saúde atentos às dimensões culturais do cuidado, de educadores capazes de avaliar algoritmos e de pesquisadores das humanidades dispostos a conhecer os fundamentos materiais das tecnologias que analisam.
A experiência chinesa, nesse sentido, convida-nos a compreender quais humanidades poderão participar da construção da inteligência artificial, interpretando seus efeitos e imaginando formas de ser e pensar que ainda não estejam contidas nos sistemas existentes.
Referências
- CHINA. Ministry of Education. New Liberal Arts Construction Conference held at Shandong University [新文科建设工作会在山东大学召开]. Beijing, 3 nov. 2020. Disponível em: https://www.moe.gov.cn/jyb_xwfb/gzdt_gzdt/s5987/202011/t20201103_498067.html. Acesso em: 31 jul. 2026.
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- CHINA. Ministry of Education. Notice on undergraduate program establishment in 2025 [教育部高等教育司关于开展2025年度普通高等学校本科专业设置工作的通知]. Beijing, 30 jun. 2025d. Disponível em: https://www.moe.gov.cn/s78/A08/tongzhi/202506/t20250630_1196068.html. Acesso em: 31 jul. 2026.
- POUILLE, Jordan. In the age of AI, Chinese universities overhaul their curricula. Le Monde, Paris, 26 jun. 2026. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2026/06/26/in-the-age-of-ai-chinese-universities-overhaul-their-curricula_6754915_4.html. Acesso em: 31 jul. 2026.
- REUTERS. China’s top universities expand enrolment to beef up capabilities in AI, strategic areas. London, 10 mar. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/china/chinas-top-universities-expand-enrolment-beef-up-capabilities-ai-strategic-areas-2025-03-10/. Acesso em: 31 jul. 2026.
- WANG, Mingyu; TIAN, Hailong. Constructing ‘New Liberal Arts’ in China’s universities: key concepts and approaches. In: INTERNATIONAL CONFERENCE ON HIGHER EDUCATION ADVANCES, 5., 2019, Valencia. Proceedings […]. Valencia: Universitat Politècnica de València, 2019. p. 1121-1128. DOI: https://doi.org/10.4995/HEAd19.2019.9111.
Glaucio Aranha é professor adjunto no Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atuando no Laboratório de Vídeo Educativo (LVE), onde desenvolve atividades de ensino e pesquisa na área de tecnologias educacionais e divulgação científica, sob a perspectiva da semiótica e dos estudos de mídias. Atua, ainda, como pesquisador associado no Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências, da UFRJ (NuDCEN/IBCCF/UFRJ), em atividades de pesquisa sobre semiótica e linguística aplicadas ao ensino de neurociências. É pesquisador-líder do grupo de pesquisa Cognição, Linguagem e Audiovisual em Sistemas Semióticos (CLASS/NUTES/UFRJ) e como colíder, em parceria com o Prof. Dr. Alfred Sholl-Franco (IBCCF/UFRJ), do grupo de pesquisa Neuroeduc – Neurociências Aplicadas à Educação (OCC/UFRJ). É associado da Organização Ciências e Cognição (OCC), ocupando atualmente o cargo de vice-presidente, da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN). Tem experiência nas áreas de: estudos de mídia, teoria literária e da narrativa, linguística, semiótica, estética de massa e divulgação científica.
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