Algo se rompeu.

Quando vi

éramos eu

e os temporais

sobre os jardins

desta manhã.

Já não sinto mais

aquele elã,

tampouco as poses

de galã

atracam agora

em meu olhar.

Hoje ao te ver

não quis falar,

mas não por mágoa

ou depressão.

É que eu queria

comprar pão.

E me assustei

quando assisti

você ali

a me esperar

e ao me estender

sua mão.

Eu te confundi

com um alguém

que vi passar

em tarde outra

no meio da

multidão.

Para ser sincero,

ei de dizer

que já não sinto

por você

sequer a sombra

da paixão.

Só pra terminar,

vou confessar

que há por você

ainda no ar

algumas gotas

de perdão.

Eu não te esqueci,

só te ignoro.

[“Algo se rompeu”, Glaucio Aranha, 13/06/2001 –

In: Aranha, Glaucio. A sensação de não estar no todo. Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2025]


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