Na quinta-feira seguinte, Lia já estava na cama antes mesmo de o vovô Samuel chegar com a cadeira. A lanterninha antiga descansava ao lado do travesseiro e ela já havia feito suas orações. Estava ansiosa para contar a ele sobre as luzinhas que havia encontrado e chegou a ficar com medo quando os pais disseram que talvez não pudessem ir à sinagoga, pois ela estava esperando muito para encontrar com seu avô. Ela não quis falar nada enquanto estavam jantando ou conversando, queria guardar para o quarto, para a hora de dormir. Ele havia dado a ela na manhã da sexta passada um caderno de capa verde, encapada por ele mesmo e ela o levou para casa e anotou as coisas nele com muito carinho.
— Vovô, eu lembrei! — disse ela, quase pulando na cama. — Eu procurei as três luzes escondidas.
Vovô Samuel sorriu, levantando as sobrancelhas grisalhas, e se sentou. Já estava pensando que ela havia se esquecido. Afinal não havia falado nada sobre o assunto até aquela hora, mas, então, entendeu que estar ali no quarto fazia daquele momento um tempo e um lugar especial só deles, tendo ela aguardado a entrada no quarto e a hora de dormir para tocar no assunto.
— Que bom, minha querida! Então, me conte.
Lia levantou um dedo. Fixou os olhinhos nos do avô dando ênfase e mostrando que estava falando de algo sério. O coração dele sempre se enxia de alegria com os gestos das mãozinhas dela dando intensidade ao que falava e, dessa vez, não foi diferente.
— Olha, a luz em mim foi quando eu emprestei meus lápis para a Joana sem reclamar. Eu sempre aviso a ela que tem que me devolver e que não pode morder, mas outro dia eu ia falar, mas não falei. Acho que esqueci. Ela usou, me devolveu e não tinha mordida. Aí, eu vi que eu estava sendo meio boba em falar sempre pra ela não fazer, porque ela sempre devolvia e nunca mordia. Eu fiquei feliz em saber que posso confiar nela sem precisar dar aviso.
Levantou outro dedinho.
— A luz em outra pessoa foi do porteiro. Sabe por quê? — Vovô Samuel fez que não com a cabeça, mantendo sua expressão curiosa e admirada — Porque ele ajudou uma senhora com as sacolas na entrada do prédio. Ela estava cheia de bolsas e andava com dificuldade. Ela no iníco disse que não precisava, mas quando ele ajudou a cara dela foi de quem ficou feliz em receber ajuda.
Levantou o terceiro dedinho, fazendo uma carinha de quem foi muito esperta.
— E a luz no mundo… Foi a chuva! — disse ela elevando a voz e o avô inclinou a cabeça, querendo entender mais essa parte — Sim, a chuva. Porque estava calor, e depois ficou fresquinho e foi tão bom. E as plantas da varanda ficaram felizes, porque a água tirou a poeira delas, molhou os vasos e elas, que estavam com as folhas meio murchinhas, ficaram durinhas de novo. Eu acho que ficaram alegres.
O avô abriu um sorriso ainda maior, que destacaram as maçãs de seu rosto. Foi um daqueles sorrisos que começam nos olhos e iluminam todo o rosto de uma pessoa.
— Uau, estou vendo que você realmente está treinando bem os olhos do coração. Parabéns!
Lia se ajeitou orgulhosa e feliz com o comentário do avô, recostou no travesseiro, com uma formalidade doce de quem organiza um pequeno ritual.
— E qual é a segunda lição da Cabalá, vovô?
Ele olhou para a janela. Do lado de fora, caíam gotinhas finas, fazendo pequenos risquinhos de brilho na luz da rua. Ele então levantou uma das sobrancelhas. Era uma dessas pessoas que fala com o rosto e as rugas mostravam isso.
— Hummm! Hoje, eu vou falar sobre uma coisa que parece invisível, mas que pode mudar tudo.
— O quê?
— A intenção.
A menina fez uma cara de dúvida. Aparentemente a ênfase do avô na palavra não tinha surtido tanto efeito quanto ele pode ter querido causar.
— Intenção é tipo vontade? — disse ela com certa desconfiança de suas próprias palavras.
— É parecido, mas intenção é o “para quê” de uma coisa. Duas pessoas podem fazer a mesma ação, mas com intenções diferentes. Espere um pouco. — ele se levantou e saiu do quarto, depois voltou com dois copos iguais e uma jarra de água. — Experimento de hora de dormir!
Vovô Samuel colocou os dois copos na cômoda. No primeiro, despejou água até a metade e, no segundo, fez a mesma coisa.
— São iguais! — disse Lia.
— Por fora, sim. Agora imagine duas situações. — ele apontou para o primeiro copo — Neste copo está a água que alguém oferece a outra pessoa dizendo: “Toma logo.” Já neste outro está a água que alguém oferece dizendo: “Eu percebi que você está com sede, beba um pouco”. Parece ser a mesma água?
Lia olhou para os copos em silêncio e fez sinal afirmativo com a cabeça. Cheia de certeza de sua resposta, afinal os dois copos receberam a água da mesma jarra, então só poderiam ser a mesma água, apenas dividida em dois copos.
— E aí é que está a chave da conversa de hoje: a água nos dois copos é e, ao mesmo tempo, não é igual, porque é a mesma água que saiu da jarra e chegou à boca, mas são duas águas muito diferentes quando chegam ao coração.
Lia pensou um pouco, olhou para baixo, mexeu nos dedinhos como se enrolasse uma fita invisível.
— Entendi. A intenção é como … — fez então uma cara desanimada.
— O que houve? Entendeu mesmo? — perguntou docemente o avô.
— Acho que entendi. É que quando o papai parou o carro aqui hoje, ele pediu um beijo e eu disse ‘não’ por que estava animada para descer do carro e te encontrar e não queria demorar a entrar, mas ele deu um sorriso que não parecia sorriso de verdade. Sabe, tipo um sorriso tristinho. Será que ele achou que a minha intensão…
Vovô Samuel bateu segurou a mãozinha pequena e clara, beijando-a logo depois.
— Você é um espetáculo, minha querida. Mas vamos pensar nisso com carinho, porque como tudo: é uma questão simples e complicada ao mesmo tempo. E isso é natural. Sim, a Intensão está envolvida nisso. Ele, provavelmente, pediu o beijo com a intensão boa de mostrar que apesar de estar se afastando de você essa noite, ele te ama muito e vai sentir sua falta; e, no fundo, devia estar esperando que você mostrasse para ele, através do beijo, que sabia que ele te ama e vai voltar. Já você quando disse ‘não’ e saiu do carro correndo teve a intensão boa de me encontrar e estar comigo. Ele pode ter ficado meio tristinho? Sim, mas porque a gente sempre cria uma expectativa de resposta, mas ele, certamente, viu a luzinha que estava brilhando em você e ficou feliz novamente, por saber que sua intensão não foi magoá-lo. Entenda, assim, a Intenção é a direção da luz.
Lia gostou de ouvir a explicação do avô, mas ainda estava incomodada com a lembrança do carro.
— Direção da luz… Vovô se amanhã quando eu encontrar o papai eu dar um beijo demorado nele e falar para ele que é um beijo de saudade e de desculpa, ele vai entender minha intensão?
— Certamente. — disse beijando novamente a mão da neta — A princípio nem seria necessário, mas se o seu coração te fala para fazer, faça. É uma direção bonita que você está dando para sua luz e que vai levar a uma outra questão que você já está adiantando, chamada Responsabilidade.
Lá fora, a chuva ficou um pouco mais forte. O som era macio, como passarinhos bicando na janela. Vovô Samuel se levantou e abaixou um pouco a intensidade da luz do abajour e vendo que os relâmpagos estavam mais frequentes, fechou as cortinas para que a imagem não perturbasse o sono de Lia, chamando a atenção da menina.
— Sabe, Lia, na Cabalá, a gente aprende que não basta só fazer. Também importa como fazemos e com que intenção fazemos as coisas. Uma palavra pode ajudar alguém ou magoar, pode ferir, mas também pode curar. Às vezes é a mesma palavra, mas dita com outro coração. Eu também já disse coisas com uma intensão e não notei que chegavam aos ouvidos dos ouvidos dos outros com outra. A nossa intensão também pode errar, sabia? A gente pode achar que está ajudando e descobre que nós é que estávamos errados. Então, é muito importante a gente sempre pensar nas coisas que a gente faz, em qual foi a nossa intensão em determinado momento e se pode ser alterada, revista… Mas isso é outra história… Acho que você entendeu bem a conversa de hoje: cada coisa que a gente faz muda de sentido dependendo da intensão com que é feita.
Lia lembrou de quando disse “tá bom” para a professora de um jeito atravessado, e de outra vez em que disse a mesma coisa e deu um abraço junto.
— Entendi… Quando eu arrumo meu quarto porque o papai mandou ou quando eu arrumo porque quero deixar a casa mais bonita, né?
— Isso.
— É uma coisa só, mas também não é, né?
— Isso mesmo. Muda por dentro, e muitas vezes muda por fora também. — ele pegou a lanterninha e a acendeu. O círculo de luz apareceu no teto de novo. — Lembra da primeira lição? Perceber a luz?
Lia fez que sim com a cabeça. Os olhos começando a mostrar que o sono estava chegando.
— A segunda é esta: aprender a colocar intenção boa nas coisas, mesmo que seja uma coisa muito simple. — ele apagou a lanterna e continuou — Quando você dá ‘bom-dia’, quando guarda um brinquedo, quando escuta alguém, quando divide um pão. A intenção é uma espécie de chave invisível.
— Chave de quê?
— Chave que abre a melhor parte de nós e da ação que nós estamos fazendo.
Lia ficou quieta, pensando. Depois perguntou:
— E uma pessoa pode fazer uma coisa boa com intenção ruim?
Vovô Samuel inspirou lentamente, suspirou com profundidade e respondeu sem pressa:
— Acontece. Somos seres humanos. É, por isso, que a gente tem que treinar. — dessa vez ele deu um sorriso para dentro, os lábios sorriram, mas os olhos fecharam como se o sorriso fosse um reconhecimento íntimo de alguma coisa — A Cabalá não é para pessoas perfeitas. Não, é para pessoas atentas, com vontade de corrigir seus erros.
— Vovô, agora eu estou ficando com muito sono. Posso treinar amanhã?
— Deve.
— Como?
Ele apontou para os dois copos.
— Escolha uma coisa simples para fazer com intenção boa. Só uma. Pode ser pequena, mas antes de fazer, pare um instante e pergunte: “Que luz eu quero colocar nisso?” — e piscou para ela.
Lia sorriu.
— Tá. Já sei. Amanhã vou dar água pro gato, mas com a intenção de cuidar dele, não só porque o papai pede, né?
— Excelente começo.
Ela fechou os olhos, abraçando a lanterninha de novo. A chuva seguia, ainda mais forte, batendo agora como uma revoada de pássaros na janela. Os trovões estavam mais altos. Provavelmente, iria continuar a noite toda, mas o quarto esta aquecido, macio e aconchegante. Já quase dormindo, a menina murmurou:
— Vovô…
— Hum?
— A intenção também espera, igual à luz?
Ele ajeitou o cobertor sobre os ombros dela.
— Claro que espera e quando você se lembra dela, até um gesto pequeno fica maior por dentro.
Naquela noite, Lia sonhou que carregava dois copos transparentes um com água e
outro com brilho. Quando acordou, não tinha certeza de qual era qual, nem do resto do sonho. Estavam apenas guardadas as imagens dos dois copos.
(Aranha, Glaucio. Capítulo 2 – O copo e a chuva. In: O labirinto de luz. Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2026.)

