Era uma noite de 23 de julho, em Niterói, como muitas outras noites de quinta-feira quando Lia dormia na casa de seu avô, pois seus pais tinham um compromisso na sinagoga. Ela adorava essas noites. Tinha oito anos. Vovô Samuel vivia na região oceânica da cidade. Na casa dele, havia um quarto especialmente preparado para ela. Havia sido o quarto de seu pai. Nele, havia uma janela com cortinas amarelas e, na mente de Lia, uma pergunta que não parava quieta dentro dela.
— Vovô, — disse ela, já de pijama, abraçando o travesseiro — você vive falando de Cabalá com o papai. O que é isso?
Vovô Samuel olhou para a carinha de Lia, com uma cara que o fazia parecer ainda mais curioso do que ela. Puxou a cadeira mais para perto da cama, como fazia quando a conversa era importante. Inspirou profundamente, como se organizasse o pensamento e expirou com suavidade.
— Bem, minha querida, eu posso dizer que é um jeito de aprender a perceber a luz que existe no mundo e, também, a luz que existe dentro de nós.
Lia franziu a testa, com carinha de dúvida. Não era como se não tivesse entendido, mas como se entendesse muitas coisas ao mesmo tempo para aquelas palavras e não soubesse qual delas escolher como certa.
— Luz de lâmpada, vovô?
Ele riu, apertando os olhinhos de um modo que ela adorava ver.
— Não, essa é outra. A luz da bondade ou luz da atenção ou tantos outros nomes que podemos dar a ela é uma luz de quando alguém faz o bem e melhora um pedacinho do dia.
Lia ficou em silêncio, ainda não sabendo se havia entendido bem. Gostava quando o vovô falava coisas que pareciam simples, mas davam vontade de pensar. Ela olhou, então, para o único ponto de claridade no quarto, que vinha do abajur azul na cômoda, e para a sombra do urso de pelúcia que aparecia enorme na parede.
— Então a Cabalá ensina mágica? — ela perguntou, já com os olhos pesados de sono.
— Não. Ela ensina a olhar a vida e o mundo com mais cuidado. Às vezes, isso parece mágica, mas não é nenhum abracadabra.
Ele foi até uma das prateleiras e pegou uma lanterninha pequena, antiga, de metal. Ela ficava dentro de uma latinha, que tinha uma pequena alça de coura. Estava meio desgastada. Ele entregou a latinha metálica à Lia, enquanto segurava a lanterna, mostrando-a à neta.
— Esta lanterninha foi minha e a dei ao seu pai. Ele deixou aqui no quarto que era dele e eu mantive o quarto com a maioria das coisas. Eu não poderia dá-la a você, pois não é mais minha, mas acho que ele não vai se importar se eu te emprestar.
Lia arregalou os olhos.
— Ela ainda funciona? — perguntou com espanto, como se estivesse diante de uma relíquia.
— Vamos descobrir?
Ele apertou o botão. Nada. A luz não acendeu. Lia fez, então, uma cara de decepção. Tanto por sua expectativa, quanto pelo avô, acreditando que ele ficaria chateado de não ter conseguido fazê-la acender.
— Que pena, vovô.
— Espere — disse ele calmamente — Antes de dizer que não funciona, a gente observa.
Ele virou a lanterninha, tirou uma tampa da parte de trás e olhou dentro do objeto. Então se levantou, foi até a televisão que ficava em cima da cômoda, pegou o controle remoto da TV e retirou as pilhas, colocando-as na lanterninha e apertou outra vez. A luz acendeu, pequena, redonda e quente. Então, girou-a pelo ar, iluminando o cobertor, o urso, a ponta do nariz de Lia e ela sorriu.
— Voltou!
— Viu? — disse o vovô — Às vezes a luz está lá, mas precisa de um cuidado especial para aparecer. Às vezes, falta um elemento e um pequeno gesto nosso pode fazer com que a luz acenda. Se ficássemos parados, apenas lamentando, certamente ela continuaria sem condições de iluminar as coisas.
Lia ficou olhando a lanterninha como se fosse um segredo.
— E a luz das pessoas também pode apagar?
Vovô Samuel que estava de pé mexendo na lanterninha olhou para ela pelo canto do olhar, segurando um meio sorriso nos lábios. Então, balançou a cabeça devagar, negativamente.
— Não. Decididamente, não pode apagar. Pode ficar escondida. Isso, sim. Quando a pessoa está triste, brava, com medo ou distraída demais, a luz não desaparece. Só fica difícil de ver. Nessas horas, a pessoa precisa procurar por pilhas bem carregadas.
Lia pensou em uma colega de turma que havia empurrado outra criança no recreio. Pensou também no porteiro do prédio, que sempre sorria para ela. Pensou nela mesma, quando respondia atravessado os pais porque estava cansada.
— Então, todo mundo tem essa luz?
— Todo mundo. Sempre.
— Até quem erra?
— Principalmente quem erra precisa lembrar disso.
O quarto ficou ainda mais quieto. Lá fora, um carro passou devagar. Depois, silêncio de novo. Vovô apontou a lanterninha para o teto, e um círculo de luz apareceu sobre a cama.
— A primeira coisa que você precisa aprender, Lia, é esta: a Cabalá começa quando você entende que existe uma luz boa dentro de cada pessoa e dentro de cada coisa criada. Mas para entender isso é preciso treinar os olhos do coração para perceber essa luz.
Lia gostou da expressão. Achou tão linda, tão fofa. Imaginou uma almofada em formato de coração com dois olhos brilhando, como nos animes que ela adorava.
— Olhos do coração…
— Sim. Eles batem num ritmo calmo. Os olhos do dia a dia a gente pode chamar de olhos da pressa porque eles veem pouco. Passam pelas coisas sem tempo para perceber. Eles não veem do verdade, só acham que veem. Já os olhos do coração veem mais porque observam com uma duração diferente, com o tempo de quem admira alguma coisa.
Ela puxou o cobertor até o queixo.
— E como eu treino?
Ele apagou a lanterninha e a colocou na mão dela. Ele admirava o como ela era novinha para algumas coisas, mas como parecia carregar uma sabedoria antiga para outras.
— Bem, amanhã, durante o dia, procure três luzes escondidas.
— Como assim? Escondidas onde? Quem escondeu? Por quê?
— Calma, escuta. Uma luzinha em você mesma. Uma outra luzinha em outra pessoa. E uma terceira no mundo. Entenda essa luzinha como alguma coisa que leva alegria, felicidade. Então a primeira é relacionada com alguma coisa que te fez se sentir bem, se sentir alegre. A segunda é uma luzinha em outra pessoa, algo que fez outra pessoa se sentir feliz. E a terceira, algo que não depende das pessoas. Vou te dar um exemplo dessas luzinhas. Quando você me perguntou hoje sobre Cabalá de uma forma tão direta e verdadeiramente interessada, uma luzinha se acendeu em mim. Eu me senti alegre com a sua curiosidade. Depois, ao ver seus olhinhos brilharem com as explicações, eu vi uma luzinha se acender em você, te enchendo de alegria ao descobrir. E, por fim, o fato de os seus pais terem um compromisso gerou a oportunidade da nossa conversa, que eu vejo como uma luzinha do mundo.
A menina apertou a lanterninha contra o peito, como se fosse um bicho de pelúcia querido.
— Vovô, eu acho que preciso anotar. Eu não vou lembrar de tudo isso.
— Agora é tarde, mas eu te lembro amanhã, ok? Se eu não lembrar você me lembra? Acho que tenho um caderninho no meu escritório que posso dar a você para anotar o que achar importante da nossa conversa e para anotar seus treinos, certo?
— Sim – disse ela animada.
— E, vovô, você pode me contar outras histórias de Cabalá na próxima quinta?
— Conto, com certeza. Uma por noite a cada quinta, pode ser?
Ela sorriu, balançando a cabeça afirmativamente e fechando os olhos. Já estava quase dormindo quando perguntou, bem baixinho:
— Vovô, e se eu esquecer de procurar?
Ele alisou os cabelos dela e respondeu:
— A luz não se ofende. Ela espera. E, quando você se lembrar, ela aparece outra vez.
Lia sorriu sentindo os olhos pesarem e o calor da mão do avô em seu rosto. Antes de adormecer pensou em três coisas: no abraço dos pais, no gato que ronronava quando ela chegava em casa, e no jeito como o vovô falava, como se acendesse uma lanterninha dentro das palavras, mas não teve força para falar.
(Aranha, Glaucio. Capítulo 1 – A lanterninha de Dentro. In: O labirinto de luz. Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2026.)

