Neste semestre, oferecerei no Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde (PPGECS/UFRJ) a disciplina “Divulgação científica na Educação em Ciências e Saúde” (NUT769), como um espaço de reflexão e prática orientada sobre como o conhecimento científico circula, ganha forma pública e produz efeitos na vida social. A divulgação científica será tematizada como um domínio em que ciência, linguagem, instituições, mídia e cultura se cruzam, reorganizando o que se entende por evidência, confiança, controvérsia e responsabilidade pública.
A proposta do curso parte do reconhecimento de que educação em ciências e educação em saúde lidam, permanentemente, com disputas de sentido: o que conta como prova, o que se considera risco aceitável, quais narrativas tornam um tema inteligível e quais dispositivos conferem legitimidade a uma informação. Em contextos marcados por desinformação e polarização, a divulgação científica passa a exigir competências que combinam leitura crítica de discursos, atenção às condições de recepção, compreensão das mediações tecnológicas e um compromisso ético com o cuidado, especialmente quando o objeto envolve corpo, sofrimento, prevenção, tratamento e políticas públicas em saúde.
No plano temático, a disciplina percorre dimensões que ajudam a compreender a divulgação científica como campo interdisciplinar e prático: fundamentos e relevância social; letramento científico e cidadania; panoramas históricos; bases epistemológicas; teorias da comunicação; política e ética da divulgação científica; divulgação científica em educação em saúde; tecnologia e mídia; e, por fim, a divulgação como discurso e gênero, isto é, como forma situada de dizer e construir realidades. Em termos de implicação profissional, esse percurso se conecta a desafios concretos, como produzir materiais e intervenções que não reduzam temas complexos a slogans; sustentar precisão sem perder inteligibilidade; reconhecer a diversidade de públicos sem transformar diferença em caricatura; lidar com controvérsias de modo responsável; avaliar impacto para além de métricas de alcance.
A disciplina ocorre às sextas-feiras, das 09h às 13h, no período de 20/03 a 10/07. Mesmo quando a divulgação científica assume formatos aparentemente simples (uma postagem, um vídeo curto, um folder, uma fala pública), ela acaba mobilizando escolhas de enquadramento, linguagem, evidências, exemplos e imagens, que reorganizam o que o público percebe como plausível, urgente e digno de confiança. Nesse sentido, estudar divulgação científica significa estudar também o modo como se constitui a autoridade do conhecimento, como se constroem consensos e como se tornam visíveis (ou invisíveis) os custos sociais da ignorância produzida, da desigualdade informacional e da circulação opaca de “certezas”.
Muitos desses aspectos, que articulei em meu livro Divulgação científica: uma abordagem multidimensional (2025) atravessam a disciplina. A intenção é retomar, ao longo das aulas, pontos selecionados do livro para discutir problemas reais de divulgação em ciências e saúde: como diferentes modelos de comunicação se apoiam em pressupostos distintos sobre público e aprendizagem; como a divulgação se torna política quando entra em políticas de saúde, vacinação, prevenção e risco; e como a prática de comunicar ciência pode ser pensada como trabalho de mediação, com ganhos e perdas, negociações de sentido e efeitos formativos.
A divulgação científica, quando pensada de modo rigoroso, oferece ferramentas para atuar em um espaço de tradução cultural com mais discernimento, evitando tanto o tecnicismo incomunicável quanto o didatismo simplificador. Ao mesmo tempo, abre um horizonte de atuação pública: extensão universitária, educação em saúde baseada em evidências, produção de materiais confiáveis, participação qualificada no debate público e intervenção responsável em ambientes digitais.
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