Há algum tempo eu venho observando como o signo saúde, no ecossistema digital, torna-se cada vez mais “forma de vida” narrada em imagens, vozes, trilhas, depoimentos, enquadramentos e microdramas cotidianos, que passam a organizar o que o público entende como cuidado, competência, risco, confiança e até “esperança”. O artigo que comento hoje, “Digital health communication: a semiotic analysis of Instagram Reels on patient experience and identity construction of Mandaya Royal Hospital Puri“, caminha exatamente por esse terreno. Ele analisa Reels do Instagram de um hospital privado indonésio (Mandaya Royal Hospital Puri) e mostra como esses vídeos curtos operam como comunicação em saúde e, ao mesmo tempo, como construção de identidade institucional.
O estudo, de Angela Navellia Tjiandra (2025), usa a abordagem semiótica de Roland Barthes (focada na denotação, conotação e mito) para destrinchar três Reels centrados em experiências de pacientes. No primeiro, tem-se uma gestante com pré-eclâmpsia que passa por uma cesariana com protocolo ERACS. No segundo, um paciente que relata sua cirurgia de coluna (arthrospine) após anos de dor e um evento vascular. Por fim, o terceiro vídeo diz respeito a um paciente australiano que viaja à Indonésia para terapia de hiperplasia prostática. O ponto central é que os três Reels funcionam como “explicação” de procedimentos, ou seja, encenam uma narrativa sensível e altamente visual de profissionalismo, empatia e alta tecnologia; e, com isso, estabilizam uma imagem de hospital “moderno e humano” (TJIANDRA, 2025).
Do ponto de vista barthesiano, a camada denotativa é relativamente simples, pois vemos rostos, leitos, equipamentos, médicos, falas, antes/depois, ambientes limpos e organizados. Mas o que interessa mesmo é a conotação, ou seja, a gramática afetiva que se instala. Expressões faciais (alívio, gratidão), cores e iluminação “acolhedoras”, música suavizante, ritmo de edição, e a própria escolha do recorte biográfico (“eu estava com medo”, “sofri por anos”, “agora voltei a andar”, “decidi viajar para tratar”) convocam o espectador para um tipo de leitura preferencial no sentido de que a tecnologia não é fria, de que ela é quase uma forma de carinho operacionalizado. E, então, chegamos ao “mito” (na perspectiva de Barthes), de uma naturalização de valores e ideologias. Os vídeos passam a sugerir que a solução tecnocientífica, quando hospedada por uma instituição “certa”, conduz a um desfecho de segurança, controle e redenção, reforçando a crença de que modernidade técnica e humanidade emocional caminham juntas (TJIANDRA, 2025; BARTHES, 2009).
Aqui vale puxar uma inferência cognitiva e também filosófica. Cognitivamente, Reels como significantes bem montados exploram atalhos que nós, humanos, usamos para decidir sob incertezas. Esses atahos podem tomar a forma de uma narrativa pessoal (que aumenta memorização e adesão), de pistas sociais (testemunho como prova), de contágio afetivo (emoções que “orientam” julgamentos), e da redução de complexidade (um procedimento altamente técnico vira uma história com começo–meio–fim). Isso pode ser ótimo para ampliar a compreensão e o engajamento em saúde, mas também pode induzir a uma sensação de evidência “vivida” que ultrapassa o estatuto do caso individual. A história comovente, por si, não equivale a uma informação clínica generalizável e confiável, embora, na percepção cotidiana, muitas vezes funcione como se fosse. Abre portas, assim, para que a fronteira entre o factual e o ficcional se turve.
É nesse ponto que a semiótica oferece uma espécie de “freio epistemológico”. O artigo mostra que estamos, simultaneamente, diante de um “conteúdo” e de uma máquina cultural de produção de sentido, em que cada signo (a música, o sorriso, a tecnologia em close, o jaleco, o ambiente premium) ajuda a produzir uma leitura preferencial (confiar, desejar, escolher, aproximar-se etc.). O hospital aparece como um ator narrativo com ethos (valor) próprio, por exemplo, como ente competente, acolhedor, resolutivo, internacionalizado. E isso tem efeitos interpretativos, pois molda expectativas, orienta decisões, interfere na forma como as pessoas imaginam o cuidado e avaliam serviços (TJIANDRA, 2025).
Há também um detalhe importante que merece ser destacado, pois o estudo dialoga com modelos clássicos da área ao sugerir que esses vídeos podem acionar componentes do Health Belief Model (percepção de risco/gravidade, benefícios, barreiras) e se aproximar da “medicina narrativa”, ao colocar o relato do paciente como eixo de sentido (TJIANDRA, 2025). Eu acrescentaria, todavia, uma outra leitura que assume os Reels como uma tecnologia de “presença”, pois eles comprimem sinais sociais (imagem+voz+texto+música) e criam uma proximidade perceptiva potencialaiada pela velocidade de consumo, que a comunicação escrita raramente alcança. O texto escrita se molda à temporalidade do leitor e sua leitura, além, obviamente de suas estratégias composicionais, enquanto o texto videográfico impõe sua velocidade. Isso aumenta a potência “pedagógica” por um lado e , por outro, aumenta a (ir)responsabilidade ética.
E quais seriam as responsabilidades e as tensões que o artigo deixa no ar (mesmo quando não as explora em profundidade)? Três me parecem decisivas. Primeiro, o risco de mitologização da tecnologia, da modelização do “moderno” como sinônimo automático de “melhor” e “mais humano”, o que pode apagar variáveis decisivas como acesso, custo, desigualdade, continuidade do cuidado e limites terapêuticos. Segundo, a estetização do sofrimento e da cura, pois quando a experiência do paciente vira linguagem de marca, a fronteira entre educação em saúde e marketing se torna porosa. Terceiro, a dimensão da privacidade e do consentimento, considerando que testemunhos têm potência, fato, mas testemunhos midiatizados são também exposições de vulnerabilidade, e isso exige protocolos claros e auditáveis.
Leio (e recomendo) este artigo como um convite metodológico problematizar o tratamento de conteúdos digitais como textos culturais que organizam afetos, crenças e identidades. Para quem trabalha com divulgação científica, educação em saúde ou comunicação institucional, a contribuição é direta, pois se você quer que o público compreenda, confie e se engaje, não basta “dizer o correto”; é preciso entender como o sentido se fabrica na superfície sensível dos signos e como isso opera no cérebro, na cultura e nas relações de poder.
A lição principal do texto, eu diria, é no sentido de que os Reels do Instagram, quando centrados em experiências de pacientes, produzem mundo. E, ao produzir mundo, produzem também o modo como o cuidado passa a ser imaginado, desejado e legitimado (TJIANDRA, 2025). Assim, embora parta de uma análise semiótica, reforça a questão da educação em saúde, divulgação científica e campos relacionados na esfera do imaginário, que é um campo não raramente intocado em termos de densidade epistemológica, alertando para valiosas abordagens em pesquisa que precuisam ser aprofundadas.
Glaucio Aranha
Referências
BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, 2006.
CHARON, Rita. Narrative medicine: a model for empathy, reflection, profession, and trust. JAMA, Chicago, v. 286, n. 15, p. 1897–1902, 2001. DOI: 10.1001/jama.286.15.1897.
TJIANDRA, Angela Navellia. Digital health communication: a semiotic analysis of Instagram Reels on patient experience and identity construction of Mandaya Royal Hospital Puri. EPRA International Journal of Multidisciplinary Research (IJMR), v. 11, n. 8, p. 634–642, 2025. DOI: 10.36713/epra23803.
Sobre o autor:
Glaucio Aranha é professor universitário e pesquisador na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com atuação em neurociências, educação em ciências e saúde, comunicação e estudos de mídia, divulgação científica, semiótica e estudos das relações entre mente, cérebro e educação. Coordena iniciativas de ensino e divulgação científica vinculadas à UFRJ e dedica-se à análise crítica das formas contemporâneas de produção de sentido sobre ciência e cuidado no ecossistema digital.
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