A semiótica da cultura, tal como elaborada por Iúri Lotman e pela Escola de Tartu, costuma ser lembrada sobretudo por sua sofisticação teórica: conceitos como semiosfera, sistemas modelizantes secundários e textualidade cultural povoam manuais e cursos especializados. Menos visível, porém, é o modo como essa teoria emergiu de um contexto histórico concreto (o socialismo real, a censura, o estatuto privilegiado da literatura no Leste europeu dentre outros) e como essas condições marcaram profundamente seus usos possíveis. É, precisamente, esse deslocamento de foco da arquitetura conceitual para a dimensão histórico-política da teoria que orienta o artigo “Cultural Semiotics – The Uses of a Theory”, de Artur Blaim, publicado, em 1994, na revista Russian Literature.

Ao trazer essa discussão para o campo do ensino, a semiótica da cultura nos convida a abandonar a ilusão do “texto em si”, como se bastasse ler um documento, um capítulo ou um artigo para que seu sentido se esgotasse ali. Lotman defende a ideia de que nenhum texto é autossuficiente, pois ele só adquire espessura semântica quando recolocado na rede de outros textos, práticas e valores que o cercam. Falar em “semiótica da cultura no ensino” é, assim, tirar o foco da busca por mensagens estáveis e universais para privilegiar a análise das condições concretas em que um texto é produzido, circula e é apropriado pelos sujeitos. O sentido do texto, aqui, é sempre uma função do contexto.

Ao revisitar a trajetória da semiótica soviética, Blaim oferece uma introdução ao pensamento de Lotman, mas, sobretudo, ele investiga o lugar social ocupado pelos estudos literários na União Soviética e na Europa do Leste, contrastando-o com a situação ocidental. Todavia, sua reflexão vai além dos estudos literários, podendo ser apropriado por vários outros campos acadêmicos. Blaim entende que, enquanto no Ocidente o estruturalismo e a semiótica enfrentaram “o teste da moda”, no Leste esses mesmos campos passaram pelo teste da perseguição, da vigilância ideológica e, depois, de um silêncio constrangido. Nesse cenário, a teoria não era um luxo acadêmico, mas um dispositivo de sobrevivência intelectual e de preservação de identidades culturais.

Ler esse texto, hoje, é voltar a um momento em que a análise de textos e sistemas simbólicos não podia ser neutra, pois implicava estratégias de proteção, jogos de alusão, formas de dizer sem dizer. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade de interrogar nossas próprias práticas acadêmicas, que muitas vezes são marcadas por disputas teóricas intensas, mas relativamente descoladas de riscos políticos diretos. Abre espaço, ainda, para que nos perguntemos sobre o que fazemos, de fato, com as teorias de que tanto gostamos de falar. É, desse ponto de vista, articulando rigor conceitual e sensibilidade histórica, que abro a leitura do artigo de Blaim e as reflexões que proponho neste post.

No contexto educacional, esse deslocamento tem implicações importantes. Em muitas situações de ensino, sobretudo em áreas fortemente conteudistas, o texto é apresentado aos estudantes como portador de uma verdade “pronta”, que pode ser simplesmente extraída por meio de leitura atenta ou de técnicas de estudo. A perspectiva da semiótica da cultura tensiona essa postura. Ela assume que compreender um texto passa a significar reconstruir o campo de forças em que ele foi gerado, os conflitos que o atravessam, os silêncios que o sustentam. Em outras palavras, analisar um texto é reconstituir semiosferas (sistemas de produção de sentidos em contextos históricos, institucionais, políticos e afetivos dentro dos quais determinados signos ganham relevância e autoridade separadamente e em zonas de conflito).

O artigo de Artur Blaim parte de uma pergunta simples: para que serviu (social, política e cognitivamente) a semiótica da cultura desenvolvida por Lotman e pela Escola de Tartu-Moscou? Logo no início, o autor lembra que qualquer teoria nas ciências sociais possui usos cognitivos e sociopolíticos que costumam ser obscurecidos pelo modo como a própria teoria descreve a si mesma. No caso soviético, essa dimensão pragmática quase não foi tematizada pelos próprios semioticistas, o que obriga o leitor a reconstruí-la a partir do contexto histórico.

Blaim mostra que a especificidade da semiótica da cultura depende do estatuto singular da literatura e dos estudos literários na União Soviética e no Leste europeu. Em sociedades marcadas por censura e controle ideológico, a literatura funcionava como substituto de instituições democráticas, e os “engenheiros de almas” ocupavam um lugar simbólico privilegiado. Nesse cenário, a semiótica (com sua terminologia técnica e aparência de ciência “neutra”) operava como dispositivo de proteção, pois criava uma camada de opacidade teórica que dificultava a intervenção direta de burocratas e censores, permitindo um grau de reflexão crítica sem confrontação explícita.

O texto acompanha também a recepção da semiótica soviética em outros países do bloco socialista, especialmente na Polônia, onde Tartu adquire, segundo Blaim, um estatuto quase de culto entre certos grupos de estudiosos. A circulação preferencial em revistas de baixa tiragem e a cuidadosa supressão de nomes “comprometidos” (na visão do sistema) revelam o limite da tolerância oficial, ao mesmo tempo em que evidenciam o uso da teoria como forma de discurso alternativo, analógico e aludido, que permitia “falar de política” sob a forma de análise de textos literários.

Num segundo movimento, o artigo desloca o foco para a dimensão epistemológica. Nesse momento, Blaim observa as tensões internas do discurso de Lotman. De um lado, um vocabulário essencialista, que parece pressupor significados imanentes nos textos, enquanto de outro, ele nota a crescente consciência de que qualquer interpretação passa pela inserção do texto em redes de ideias, valores e associações extratextuais. Essa inflexão conduz à redefinição da semiótica da cultura como disciplina histórica, voltada menos para a “verdadeira interpretação” de uma obra e mais para a reconstrução dos sistemas semióticos que regulam a produção de sentido em determinada cultura.

É importante destacar que o autor identifica um paradoxo no contexto do surgimento dessa teoria. Ocorre que a mesma ordem político-ideológica que a semiótica da cultura ajudava a minar (ao relativizar ideologias e revelar seus mecanismos) foi a condição de possibilidade de sua relevância social. Em um mundo em que preservar a identidade cultural parecia mais vital do que a estabilidade financeira individual, a vida dedicada ao estudo de textos tinha um peso existencial e político difícil de ser reproduzido em democracias de mercado. Com o colapso do socialismo real, esse lugar privilegiado dos estudos literários se tornou incerto, e a teoria foi “deslocada” para outros usos.

A reflexão de Blaim, portanto, não é apenas histórica, pois ela nos obriga a encarar a semiótica da cultura e, por extensão, qualquer teoria, como prática situada, atravessada por estratégias de sobrevivência intelectual, por micropolíticas acadêmicas e por jogos de visibilidade e silêncio. Longe de diminuir a teoria, essa perspectiva a torna mais interessante. Digo isto porque em vez de um sistema abstrato pairando acima da história, temos um repertório conceitual que foi, ao mesmo tempo, ferramenta de análise, linguagem de proteção e forma de intervenção discreta num espaço público fortemente vigiado e que, hoje, pode ser articulada com variados outros contextos.

É perfeitamente possível, a partir da leitura do artigo de Blaim, pensar a aplicabilidade da semiótica cultural, por exemplo, no campo da educação em ciências e saúde, o que significa reposicioná-la do universo estritamente literário para o das práticas pedagógicas e comunicacionais. Se o ponto de partida de Lotman é a ideia de semiosfera, ou seja, de um espaço cultural povoado por múltiplos sistemas de signos em interação, então escolas, cursos de graduação, residências, programas de extensão e ações de divulgação científica podem ser compreendidos como micro-semiosferas em permanente negociação de sentidos. Nessas micro-semiosferas, o discurso científico nunca aparece “puro”, pois ele é mediado por linguagens institucionais, por rotinas acadêmicas, por dispositivos de avaliação, por plataformas digitais e por expectativas sociais sobre o que significa “ser profissional de saúde” ou “ser cientista”.

Voltando ao texto de Blaim, é possível observar que ele destaca justamente esse ponto, ou seja, o de que as teorias descrevem o mundo e, ao mesmo tempo, oferecem estratégias para lidar com regimes de visibilidade e de controle. Se trouxermos este entendimento para os contextos educacionais, podemos reconhecer que o currículo, os livros-texto, os protocolos clínicos simulados, as diretrizes de competências e mesmo os editais de fomento compõem sistemas semióticos que autorizam certas narrativas sobre ciência e saúde e silenciam outras. Portanto, a semiótica da cultura fornece um vocabulário para tornar visíveis essas escolhas, abrindo um interessante e rico leque de perguntas possíveis, como: Quais textos e imagens são colocados no centro da formação? Quais vozes (de pacientes, de comunidades, de saberes tradicionais) permanecem na periferia? Que tipo de “engenheiros de almas” formamos hoje nas faculdades de medicina, enfermagem, biomedicina, psicologia ou licenciaturas em ciências?

Do ponto de vista didático, adotar o perspectiva da semiótica cultural pode nos ajudar a perceber que ensinar ciências e saúde envolve o trabalho com conteúdos específicos, mas, conjuntamente, criar condições para que os estudantes circulem entre sistemas de signos distintos, que vão da linguagem formal dos artigos científicos às narrativas de casos clínicos, dos infográficos de divulgação às experiências vividas em serviços de conscientização sobre autocuidado. Portanto, uma abordagem inspirada na semiótica da cultura pode contribuir, por exemplo, para orientar práticas e pesquisas que enfatizem a tradução entre linguagens. Na divulgação científica, a teoria pode ser aplicada na análise de de práticas de tradução como a reescrita de artigos em formatos de podcast para leigos; transformação de diretrizes clínicas em histórias em quadrinhos ou vídeos curtos; análise de representações de cérebro e corpo em séries, games e mídias sociais, explicitando os valores que as sustentam; e muitos outros. No ensino formal, pode auxiliar na análise de materiais didáticos, de discursividades, na análise de comportamentos e relações (discente/docente, gestão/docente, discente e espaço escolar etc.). Trata-se de reconhecer que todo conhecimento circula em textos e contextos por meio sistemas simbólicos, que a produção de sentido se dá sempre “em relação a” e que pensar essas relações de produção de sentido é uma prática crítica altamente relevante.

Nessa direção, “o sentido do texto a partir do contexto” se torna um princípio organizador de práticas pedagógicas concretas. Em vez de trabalhar artigos, diretrizes clínicas ou materiais de divulgação científica como peças isoladas, o professor ou mediador pode propor que os estudantes mapeiem os contextos de produção e circulação desses textos: quem fala, para quem fala, em que cenário institucional, sob quais disputas de poder, com quais efeitos esperados. Uma mesma diretriz em saúde, por exemplo, adquire sentidos distintos quando lida em um serviço de atenção básica, em um curso de graduação, em uma política pública ou em uma campanha de mídia. Tornar essas variações visíveis é uma forma de letrar os sujeitos na ecologia semiótica em que esses conteúdos ganham vida.

Há ainda uma dimensão ética que atravessa esse olhar semiótico. Ao mostrar como a semiótica da cultura foi usada, no Leste europeu, como forma discreta de resistência intelectual, Blaim indica que a leitura crítica de textos pode ser um exercício de liberdade mesmo em contextos regulados. Se aplicarmos esse entendimento ao contexto da educação em ciências e saúde, pensando nas possibilidades de trabalhar com estudantes a crítica a discursos hegemônicos, por exemplo, o modelo biomédico estrito, o produtivismo acadêmico ou as promessas tecnosalvacionistas, estaríamos criando um espaço de reflexão rico e relevante a partir do olhar da semiótica da cultura. Isto nos permitiria problematizar como determinados discursos se tornam centrais e como também podem produzir exclusões, abrindo espaço para discutir justiça cognitiva, colonialidade do saber e pluralidade de racionalidades no interior da formação científica e profissional.

A despeito de partir de uma questão literária, ao devolver a semiótica da cultura ao terreno da historicidade e da política, o artigo de Blaim nos lembra que nenhuma teoria é inocente ou desinteressada, nem tampouco situada exclusivamente em seu contexto de origem. Assim, ao reconstruir os usos desta escola semiótica no contexto do socialismo real, o texto dele nos mostra como conceitos sofisticados podem funcionar, ao mesmo tempo, como instrumentos de análise e como táticas de sobrevivência intelectual. Para quem se move, hoje, entre educação em ciências, saúde e divulgação científica, essa lembrança é preciosa, pois também nós operamos em uma semiosfera marcada por disputas de legitimidade, métricas de produtividade, plataformas digitais e assimetrias de poder que moldam o que pode ser dito e ouvido.

As perspectivas que se abrem são amplas. Podemos tomar a semiótica da cultura como um quadro analítico para pensar currículos, materiais didáticos, museus, mídias sociais e práticas clínicas como textos em interação, nos quais se negociam identidades, saberes e formas de pertencimento. Ela pode sustentar projetos de letramento científico mais críticos, que busquem compreender sistemicamente a relação dos conteúdos, dos regimes de sentido que autorizam certas verdades e marginalizam outras. Pode, ainda, inspirar práticas pedagógicas que valorizem a tradução entre linguagens (acadêmica, midiática, comunitária) e que tomem a interdisciplinaridade como exercício constante de deslocamento entre códigos.

Os desafios, entretanto, são proporcionais às promessas. Em termos institucionais, ainda é difícil encontrar espaço, tempo e reconhecimento para abordagens que cruzam teoria da cultura, educação e saúde. Muitas vezes, o “útil” é reduzido ao imediatamente mensurável, e as análises semióticas são vistas como luxo humanístico. Em termos epistemológicos, permanece a tensão entre o desejo de objetividade e o reconhecimento de que todo conhecimento é mediado por sistemas de signos, por narrativas e, fortemente, por interesses. Politicamente, há o risco permanente de que a crítica se torne apenas retórica, sem incidência efetiva sobre as estruturas que produzem exclusões e silenciamentos.

Ainda assim, entendo que o encontro entre a reflexão proposta por Blaim e os desafios contemporâneos da educação em ciências e saúde nos indica um caminho fértil. Trata-se de um caminho pouco (ou quase nada) comum no campo da saúde: assumir a semiótica da cultura como bússola para trilhar um caminho que nos ajuda a redesenhar as condições de produção de sentidos em nossos espaços formativos, atentando para as relações semióticas, os processos de semiose, as zonas de tradução e outros aspectos inerentes a essa teoria; porque, em última instância, cada sala de aula, cada consultório, cada laboratório e cada museu são simultaneamente semiosferas e pequenas fronteiras (zonas de interfaces) com outras semiosferas. E é ali, no intervalo entre o gesto do professor e o olhar inquieto do estudante, entre a fala do profissional de saúde e a escuta do cuidador ou do paciente que a cultura sussurra baixinho a possibilidade de outros mundos semânticos que ainda podem ser escritos. Investigar a relações de sentido é, assim, buscar compreender não a máquina, mas suas engrenagens; não a síntese, mas o processo que leva a ela. Em última instância, compreender a cultura exige mergulhar na ebulição do universo sígnico, acompanhando o seu cozimento, em vez de limitar-se ao cozido já estabilizado das formas culturais.

Glaucio Aranha

Referência

Blaim, A. (1994). Cultural semiotics—The uses of a theory. Russian Literature, 36(3), 243–253. Disponível em: https://www.academia.edu/80887686/Cultural_Semiotics_The_Uses_of_a_Theory?utm

Lotman, Y. M. (1990). Universe of the mind: A semiotic theory of culture (A. Shukman, Trans.; U. Eco, Introd.). London & New York: I. B. Tauris.

Como citar esse texto:

ARANHA, Glaucio. Semiótica da cultura no ensino: o sentido do texto a partir do contexto. Gabinete Virtual, 8 dez. 2025. Disponível em: <https://glaucioaranha.com/2025/12/08/materia/\>


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