Numa manhã úmida de quarta-feira em Curitiba (PR), um grupo de pacientes se reúne no pátio de uma Unidade de Saúde da Família. Antes das consultas médicas, são convidados a praticar alguns minutos de respiração consciente (prāṇāyāma) e movimentos suaves de alongamento inspirados no sūrya-namaskār, uma sequência tradicional do Yoga. Em seguida, participam de uma conversa sobre alimentação equilibrada segundo os princípios do Āyurveda, uma medicina milenar da Índia.

Cenas como essa, que hoje podem ser encontradas em algumas equipes do Sistema Único de Saúde (SUS), seriam impensáveis no Brasil de vinte anos atrás. A mudança começou em 2006, quando o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC), reconhecendo oficialmente terapias como acupuntura, fitoterapia e homeopatia (Brasil, 2006). Em 2017, essa política foi ampliada por meio da Portaria nº 849, que incluiu entre as práticas disponíveis no SUS o Yoga e o Āyurveda — dois sistemas de cuidado profundamente enraizados na cultura indiana (Brasil, 2017).

Neste texto, discuto a potência que a articulação destes princípios e saberes da tradição hindu podem trazer para o sistema único de saúde brasileiro, com a atual política pública de saúde. Certamente, não se trata de uma mera curiosidade intercultural, mas de uma convergência entre diferentes formas de compreender o cuidado: de um lado, a racionalidade biomédica ocidental; de outro, a visão integral do ser humano que marca a medicina ayurvédica e a filosofia do Yoga. Entre elas a crescente conscientização para o fato de que não uma só forma de ver a saúde, de que o próprio sentido do signo saúde é culturalmente estabelecido. O ponto de encontro dessas abordagens é o campo das práticas integrativas, onde conceitos como prakṛti — a constituição psicofísica individual que, segundo o Āyurveda, orienta o equilíbrio do corpo e da mente — começam a ser traduzidos para a realidade da atenção primária brasileira.

Para entender como tradições tão distintas podem se encontrar e dialogar, é útil recorrer a um importante conceito da teoria da semiótica da cultura: a semiosfera. Criado pelo semiótico russo Iuri Lotman, esse termo se refere ao espaço simbólico onde diferentes linguagens, culturas e modos de ver o mundo (cosmovisões) coexistem e entram em contato (Lotman, 1990). A ideia é simples, mas guarda também certa complexidade: toda cultura funciona como um ecossistema de signos, e os encontros entre culturas criam zonas de fronteiras simbólica, uma intercessão entre semiosferas. Tais espaços fronteiriços são lugares porosos, mas nem por isso livres de tensões.

É nesse espaço de fronteira que o Yoga e o Āyurveda entram no cenário da saúde pública brasileira. Quando práticas como o prāṇāyāma (exercícios respiratórios) ou a dinacaryā (rotina diária ayurvédica) são incorporadas às atividades das Unidades de Saúde da Família, elas passam por um processo de tradução — não apenas linguística, mas cultural, simbólica e institucional. Como destaca a pesquisadora Lucia Santaella, esse tipo de hibridismo se intensifica no mundo conectado em que vivemos, onde as mídias e tecnologias facilitam o trânsito global de saberes e práticas (Santaella, 2013).

Vale destacar, que no processo de encontro entre as visões de saúde da tradição hindu e da medicina tradicional ocidental, temos um desafio que atravessa a própria ressignificação tanto das práticas, quanto dos agentes (médico e paciente). Na perspectiva semiótica lotmaniana (Lotman, 1990), por exemplo, o próprio corpo do paciente é um “texto” que carrega sentidos, experiências e identidades. Por conta disso, ao se introduzir no seu tratamento novas práticas culturais, esse paciente vai participar ativamente da construção de sentidos entre o que é prescrito pela medicina convencional ocidental (alopática) e o que é proposto por práticas como o Yoga ou o Āyurveda. Esse paciente se torna, assim, coautor do cuidado, pois não aceitará passivamente as novas práticas. Ele irá entrar em uma fronteira de produção de sentido, na qual articulará suas memórias, suas percepções sobre a doença e o cuidado, bem como suas abertura psicológica para dialogar com elementos de outra cultura. Trata-se de um movimento rico em significações e significados, um processo de coconstrução do cuidado, não podendo ser importa.

Isto nos leva, assim, a um debate mais amplo sobre o que significa “saúde”. O filósofo francês Jean-François Lyotard observou que vivemos, já há décadas, uma era marcada pela desconfiança nas grandes narrativas universais, como o cientificismo ou o progresso linear. Neste cenário, multiplicam-se os “jogos de linguagem”, ou seja, as formas diversas e localizadas de produzir sentido (LYOTARD, 1984). As antigas genealogias sobre saúde passam por releituras e ressignificações à medida em que transita por diferentes culturas e estabelece diferentes relações de sentidos com contextos socioculturais variados, aumentando exponencialmente as micronarrativas em torno do signo saúde. Cada sistema cultural articula linguagens próprias do seu contexto, que vão influenciar, sobremaneira, o modo como as alternativas de tratamento completar são propostas e recebidas. Ao aproximar noções de saúde distintas, como a indiana e a brasileira, abrem-se novos desafios no tocante à produção de sentido no cuidado.

A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) reflete essa virada. Ao reconhecer terapias que vêm de tradições não ocidentais, como a medicina chinesa, o xamanismo ou o próprio Āyurveda, o SUS afirma o direito à pluralidade epistêmica. Esse tipo de política encarna uma forma de reconhecer que os saberes produzidos por populações historicamente marginalizadas no cenário global também têm valor, eficácia e legitimidade (Santos; Meneses, 2010), também precisam ser ouvidas e entendidas.

Esse olhar plural se alinha também com a proposta da antropologia clínica, especialmente nas contribuições de Arthur Kleinman e Peter Benson, que sugerem que o profissional de saúde não deve apenas “entender a cultura” do paciente, mas sim reconstruir com ele suas narrativas de sofrimento e cuidado (Kleinman; Benson, 2006). Nessa chave, quando um médico ayurvédico identifica um paciente como do tipo vāta–pitta, por exemplo, há uma articulação de linguagens e culturas. A maneira de reconhecer os padrões de sensibilidade corporal e emocional não é apenas uma categorização, mas sim um mergulho linguístico e cultural que exige letramento intercultural e um diálogo com novas categorias biomédicas, estilos de vida e perspectivas socioculturais diversas.

Por fim, é importante lembrar que esse movimento não é só brasileiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem incentivado os países-membros a integrar as medicinas tradicionais aos seus sistemas de saúde, desde que isso seja feito com segurança e base em evidências. A nova Estratégia Global de Medicina Tradicional da OMS (2025–2034) reafirma esse compromisso e reforça a importância de respeitar as epistemologias próprias de cada sistema de cuidado (WHO, 2024).

Assim, a possibilidade de inclusão de práticas hindus, como o Āyurveda e o Yoga, no sistema único de saúde brasileiro (SUS) é uma decisão política, epistêmica e cultural que redesenha o que entendemos por saúde, cuidado e bem comum. É salutar que esse diálogo seja acompanhado pelo universo acadêmico, a fim de que conhecimentos possam ser produzidos, preferencialmente em colaborações bilaterais, em face da pluralidade de agentes e saberes envolvidos, e de que as políticas públicas não se limitem a uma legitimação formal de “práticas exóticas”, mas incorporem instâncias de avaliação contínua, formação intercultural de profissionais e participação ativa das comunidades usuárias.

Dessa forma, a interlocução entre as semiosferas da biomedicina ocidental e das medicinas hindus poderá gerar sinergias concretas, evitando apropriações reducionistas e promovendo, de maneira eticamente responsável, a ampliação do repertório terapêutico oferecido à população. Em última instância, reconhecer a coexistência desses diferentes regimes de saber implica admitir que o cuidado em saúde é uma prática essencialmente dialógica e dinâmica, cujo horizonte de sentido se expande quando somos capazes de habitar as fronteiras culturais com abertura crítica e compromisso público.

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. (2006). Portaria GM/MS nº 971, de 3 de maio de 2006. Institui a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt0971_03_05_2006.html

Brasil. Ministério da Saúde. (2017). Portaria GM/MS nº 849, de 27 de março de 2017. Amplia as práticas integrativas e complementares no SUS. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt0849_27_03_2017.html

Charaka. (1999). Charaka-Saṃhitā (Edição em sânscrito e inglês). Varanasi, Índia: Chaukhambha Orientalia.

Feuerstein, G. (2008). The Yoga Sūtra of Patañjali: A new translation and commentary. Rochester, VT: Inner Traditions.

Kleinman, A., & Benson, P. (2006). Anthropology in the clinic: The problem of cultural competency and how to fix it. PLoS Medicine, 3(10), e294. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.0030294

Lotman, Y. M. (1990). Universe of the mind: A semiotic theory of culture (A. Shukman, Trans.; U. Eco, Ed.). Bloomington: Indiana University Press.

Lyotard, J.-F. (2009). A condição pós-moderna: Um relatório sobre o saber (R. Barbosa & M. B. N. da Silva, Trans.). São Paulo: José Olympio. (Original de 1979)

Santaella, L. (2013). Cultura e artes do pós-humano: Da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus.

Santos, B. de S., & Meneses, M. P. (Eds.). (2010). Epistemologias do Sul. Coimbra, Portugal: Almedina.

World Health Organization. (2024). WHO traditional medicine strategy 2025–2034 (Draft). https://cdn.who.int/media/docs/default-source/tci/draft-traditional-medicine-strategy-2025-2034.pdf?sfvrsn=dd350962_1


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