Glaucio Aranha
Introdução
O conceito de imaginário tem sido amplamente discutido em diversos campos do conhecimento, incluindo a filosofia, sociologia, antropologia e psicologia. Ele se refere às representações coletivas que uma sociedade ou um grupo constrói sobre o mundo, influenciadas por mitos, símbolos, crenças e narrativas que moldam a maneira como as pessoas percebem e interpretam a realidade. No campo das ciências e da saúde, o imaginário ocupa um lugar modelizante de percepções, pois atua como uma ponte entre o universo técnico-científico e a percepção que as sociedades têm sobre o conhecimento produzido nesse universo.
Não há propriamente um imaginário, o mais adequado seria falar em imaginários. Aliás, é importante destacar ele não são apenas fantasias ou ideias distantes da realidade; ao contrário, eles são sistemas semióticos modelizantes que orientam ações, comportamentos e decisões cotidianas. No contexto das ciências, o imaginário muitas vezes se expressa através de metáforas que ajudam a popularizar conceitos complexos, facilitando sua compreensão pelo público leigo. Por exemplo, a representação do cérebro como um “computador” ou do DNA como um “código” são metáforas do imaginário científico que influenciam como o público e até mesmo cientistas pensam a biologia humana.
Na saúde, o imaginário coletivo é igualmente significativo. Crenças sobre o corpo, doenças e tratamentos variam ao longo do tempo, de espaços geográficos e de acordo com o contexto cultural, refletindo valores e expectativas sociais. Em muitas culturas, a doença não é vista apenas como uma questão biológica, mas como um fenômeno multifatorial que pode envolver questões espirituais, psicológicas e sociais. O imaginário sobre a saúde também evolui conforme novas tecnologias surgem, por exemplo, o avanço da biotecnologia desperta esperanças sobre uma vida mais longa e saudável, ao mesmo tempo em que gera ansiedades sobre os limites éticos e morais dessas inovações.
Além disso, os imaginários influenciam também na formação das políticas de saúde pública e das ciências. Decisões sobre vacinação, adoção de novas tecnologias médicas e tratamentos experimentais, por exemplo, são profundamente influenciadas pelas percepções e representações que o público tem sobre essas práticas. A aceitação ou rejeição de certas medidas de saúde depende, em grande parte, de como essas ações são compreendidas e encaixadas nos imaginários vigentes em diferentes sociedades.
Desse modo, vão além de um mero conjunto de abstrações, pois possuem efeitos concretos sobre o modo como a ciência e a saúde são desenvolvidas, geridas e aplicadas, como as políticas são elaboradas e como a população responde a essas iniciativas. Entender o papel dos imaginários no campo das ciências e da saúde nos permite, portanto, explorar as múltiplas camadas que compõem a construção do conhecimento e sua influência nas esferas social, cultural e política.
A esfera do imaginário oferece, portanto, um arcabouço simbólico através do qual a sociedade interpreta e assimila inovações e descobertas, influenciando tanto a pesquisa científica quanto a prática clínica. A análise aprofundada sobre como os imaginários impactam a compreensão científica e os cuidados com a saúde é um ponto relevante e que demanda atenção acadêmica, destacando sua relevância também para o desenvolvimento de práticas mais inclusivas e eficientes no campo da saúde.
O Imaginário Científico: entre a Realidade e a Ficção
O imaginário científico tem uma natureza ambígua, situando-se no limiar entre a realidade empírica e a ficção especulativa. É formado tanto por conhecimentos científicos rigorosos quanto por mitos e narrativas culturais que interpretam ou extrapolam esses conhecimentos. A ciência, enquanto prática e discurso, é muitas vezes percebida pelo público por meio de representações simbólicas e simplificadas, que ajudam a torná-la acessível, mas que também podem distorcer ou exagerar seus verdadeiros alcances. Bruno Latour (2000) argumenta que o conhecimento científico é sempre uma construção social, constantemente negociado entre diferentes atores e representado de formas que influenciam tanto sua prática quanto sua recepção pública. Assim, esse imaginário deve ser entendido tanto como uma ferramenta de comunicação quanto como uma arena de tensões entre a verdade científica e as expectativas culturais.
A ficção científica é um dos principais vetores de difusão desse imaginário, desempenhando um papel central na maneira como a ciência e a tecnologia são concebidas pelo público. Livros, filmes e séries de televisão frequentemente exploram cenários futuristas, nos quais a ciência é tanto uma solução quanto uma ameaça. Exemplos clássicos, como “Frankenstein” de Mary Shelley e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, são emblemáticos do poder que o imaginário tem de projetar ansiedades e esperanças sobre os avanços científicos. Essas obras refletem uma preocupação constante: até que ponto a ciência pode ou deve intervir na vida humana? Donna Haraway (1991) discute como figuras como o ciborgue na ficção científica refletem as interações entre o humano e a tecnologia, questionando as fronteiras entre natureza e artifício. Ela destaca que essas narrativas vão além da mera especulação sobre o futuro, tendo um papel relevante na modelização ativa das formas como a sociedade pensa sobre a ciência e suas implicações éticas.
O uso dessas narrativas não se limita à ficção. Elas frequentemente influenciam debates reais sobre ética e responsabilidade científica. Discussões sobre a biotecnologia, a inteligência artificial e a exploração espacial, por exemplo, são profundamente marcadas pelos imaginários construídos ao longo de décadas de representações midiáticas e literárias. A obra de Arthur C. Clarke (1962) exemplifica bem como a ficção científica pode extrapolar inovações científicas e tecnológicas, influenciando o imaginário popular e criando expectativas sobre o que a ciência poderia alcançar no futuro. A clonagem humana, inicialmente vista como um cenário ficcional em obras como “O Parque dos Dinossauros” de Michael Crichton, tornou-se um tema real e ético a partir do advento da clonagem de mamíferos. O impacto dessas representações sobre a percepção pública e as políticas científicas não pode ser subestimado, pois moldam expectativas e temores sobre o que a ciência pode alcançar e sobre os riscos envolvidos.
Além disso, o próprio discurso científico utiliza metáforas e narrativas que alimentam o imaginário coletivo. Metáforas como a do “código genético” para descrever o DNA ou do “big bang” para explicar a origem do universo são exemplos de como a ciência se vale de construções simbólicas para traduzir fenômenos complexos em termos mais facilmente compreensíveis. Gaston Bachelard (1996) argumenta que essas metáforas são fundamentais para a formação do espírito científico, pois permitem que conceitos difíceis sejam articulados e compreendidos em novos contextos. No entanto, como Jean Baudrillard (1994) aponta, essas representações podem criar uma hiper-realidade, onde o símbolo se torna mais significativo do que a realidade que pretende representar, gerando uma compreensão ilusória dos fenômenos científicos. Essas metáforas, portanto, podem criar ilusões de compreensão, oferecendo ao público a impressão de que certos conceitos científicos são mais simples e estáveis do que realmente são. Isso reforça a ideia de que o imaginário científico é tanto uma ponte quanto uma barreira, promovendo a compreensão e gerando concepções que podem ser enganosas dependendo de seu contexto de enunciação e recepção.
Outro aspecto importante do imaginário científico é a expectativa de que a ciência resolverá todos os problemas da humanidade. Essa visão prometeica da ciência, segundo a qual o progresso tecnológico nos levará a uma sociedade utópica, é bastante comum no discurso popular. No entanto, como Latour (2000) observa bem essa confiança no progresso científico nem sempre corresponde à realidade das práticas científicas, pois, do ponto de vista pragmático, elas estão longe de ser lineares e isentas de conflitos; é, assim, um processo complexo e frequentemente limitado por fatores econômicos, políticos e éticos. A pandemia de COVID-19, por exemplo, evidenciou tanto o poder quanto as limitações da ciência, destacando a importância de expectativas realistas em relação à velocidade e à capacidade da ciência de enfrentar crises globais.
Ao explorar a relação entre realidade e ficção no imaginário científico, é possível identificar um processo contínuo de construção e reconstrução de percepções sociais. Susan Sontag (1966) sugere que as narrativas de catástrofes científicas na ficção refletem as ansiedades sociais sobre o progresso científico, criando um espaço onde os medos sobre o futuro podem ser explorados e examinados. O imaginário é alimentado pelas descobertas científicas, mas também moldado pelas interpretações culturais dessas descobertas. Assim, ele exerce um impacto profundo tanto sobre a forma como o público compreende a ciência quanto sobre o próprio desenvolvimento científico. Para que a ciência continue a evoluir de maneira responsável, é importante que o imaginário que a cerca seja constantemente revisitado e criticamente avaliado, equilibrando o entusiasmo com uma compreensão mais realista de seus limites e potenciais.
Trata-se, portanto, de um elemento dinâmico e poderoso, que, simultaneamente, reflete e influencia as práticas científicas e a maneira como a sociedade se relaciona com elas. Ele está em constante evolução, desafiando a fronteira entre o real e o imaginado, e, como tal, tem um impacto relevante na educação científica e nas decisões políticas e éticas que moldam o futuro da ciência e da tecnologia.
O Imaginário na Saúde: tradições, crenças e futurismo
No campo da saúde, o imaginário é construído a partir de uma complexa rede de tradições, crenças e expectativas sobre o futuro. Ao longo da história, as sociedades construíram diversas narrativas sobre o corpo humano, as doenças e os processos de cura, baseadas tanto em conhecimentos científicos quanto em práticas culturais e religiosas. Esses imaginários ajudam a humanidade a entender como diferentes populações lidam com a saúde, a doença e a medicina. Eles influenciam diretamente as escolhas que as pessoas fazem em relação aos cuidados com a saúde e também afetam as políticas públicas de saúde.
As tradições médicas, por exemplo, desempenham um papel modelizante enorme no imaginário da saúde. Desde a Antiguidade, sistemas médicos como a medicina ayurvédica indiana, a medicina tradicional chinesa e a medicina ocidental baseada nos preceitos hipocráticos têm sido forças irradiadoras de imagens acerca da forma como o corpo e as doenças são compreendidos. Bachelard (1996) nos lembra que a ciência moderna surgiu em diálogo e, muitas vezes, em ruptura com essas tradições, incorporando elementos de saberes ancestrais e culturais, mas ainda assim influenciados diretamente pelas imagens mentais consolidadas nessas tradições. Essas práticas tradicionais continuam a influenciar o imaginário contemporâneo da saúde, onde muitas pessoas combinam medicina científica com tratamentos alternativos, buscando uma abordagem holística que incorpore tanto o corpo quanto o espírito.
Além das tradições, o imaginário na saúde é permeado por crenças populares, muitas vezes vinculadas a explicações sobrenaturais ou metafísicas sobre a origem das doenças e os meios de cura. Michel Foucault (1979) explora a relação entre poder e conhecimento na saúde, destacando como o discurso biomédico moderno convive com outros saberes, como a fé religiosa ou crenças espirituais sobre o corpo. Essa coexistência é evidente nas práticas contemporâneas, como o uso de fitoterápicos, rituais de cura e a busca por equilíbrio energético, que coexistem com tratamentos alopáticos e métodos científicos. Essa multiplicidade de práticas reflete a diversidade de imaginários que guiam as percepções sobre a saúde, especialmente em contextos onde a medicina tradicional está enraizada na cultura local.
Outro fator fundamental no imaginário da saúde é o futurismo, isto é, a projeção de expectativas em relação aos avanços da medicina e à longevidade humana. Com o desenvolvimento de tecnologias emergentes, como a biotecnologia, a engenharia genética e a inteligência artificial, novas visões sobre o futuro da saúde têm sido construídas. A obra de Donna Haraway (1991) nos ajuda a entender como a ideia de ciborgue, que combina corpo humano e tecnologia, influencia o imaginário contemporâneo da saúde. A medicina personalizada, a regeneração de tecidos e até a imortalidade biológica são tópicos que habitam o imaginário futurista da saúde, alimentados tanto por avanços científicos reais quanto por representações na ficção científica.
Essas projeções futuristas também suscitam debates éticos e sociais. Baudrillard (1994) discute como as inovações tecnológicas podem gerar uma hiper-realidade, onde o otimismo tecnológico mascara as limitações e os riscos associados a esses avanços. Por exemplo, a promessa de vidas mais longas e saudáveis está frequentemente associada a narrativas de aperfeiçoamento humano, como o transumanismo, que vislumbra a superação dos limites biológicos por meio da tecnologia. No entanto, essas expectativas muitas vezes desconsideram as desigualdades sociais e os dilemas éticos que surgem com o acesso desigual às tecnologias de ponta.
O imaginário em torno da saúde, portanto, é construído a partir de uma interação contínua entre tradições históricas, crenças populares e projeções futuristas. Ele afeta como as pessoas entendem sua saúde e como elas se relacionam com o sistema de saúde, seja adotando ou rejeitando tratamentos, seja exercendo pressão para mudanças em políticas públicas, dentre outras. As expectativas sobre o futuro da saúde moldam decisões políticas e científicas no presente, influenciando, por exemplo, o financiamento de pesquisas sobre envelhecimento, medicina regenerativa e inteligência artificial na medicina.
Esse imaginário da saúde é, assim, dinâmico e multifacetado, construído por uma mistura de conhecimentos científicos e tradições culturais. Ele reflete tanto o desejo de retorno a práticas naturais e holísticas quanto a esperança em um futuro tecnológico que traga soluções definitivas para os problemas da humanidade. Para que a saúde evolua de maneira equitativa e inclusiva, é necessário que essas diversas visões sejam integradas de forma crítica, considerando tanto os benefícios quanto os desafios que essas projeções futuristas implicam.
Impactos dos Imaginários nas Práticas e Políticas de Saúde
Os imaginários coletivos não são estáticos; eles evoluem à medida que a sociedade muda, novas tecnologias emergem e diferentes crises de saúde são enfrentadas. Contudo, além de moldarem a percepção da saúde e da doença, eles determinam como os sistemas de saúde são organizados, que tipo de tratamentos são priorizados e de que forma as políticas de saúde são implementadas em nível global e local.
Um exemplo claro do impacto do imaginário sobre as práticas de saúde é a forma como as sociedades percebem a importância de intervenções preventivas. Em muitas culturas, o imaginário da medicina é frequentemente centrado na cura, associando o ato médico à resposta terapêutica após o surgimento da doença. No entanto, à medida que a compreensão científica sobre a prevenção avança, os sistemas de saúde têm gradualmente se voltado para intervenções preventivas, como campanhas de vacinação, exames de rastreamento e a promoção de hábitos saudáveis. Este foco crescente na prevenção desafia imaginários históricos que tratam a medicina como um conjunto de práticas voltadas exclusivamente para a correção e cura de doenças já estabelecidas (Latour, 2000). A transição para políticas de saúde pública preventivas exige, portanto, uma mudança significativa nos imaginários sociais, incentivando as pessoas a valorizarem o cuidado contínuo e a adoção de práticas preventivas.
Outro impacto digno de nota se dá em relação aos imaginários sobre as políticas de saúde na forma como os recursos são alocados. Em muitas sociedades, o imaginário coletivo privilegia intervenções tecnológicas avançadas, o que pode desviar recursos de outras áreas igualmente importantes, como a saúde básica e comunitária. Isso é particularmente evidente em países em desenvolvimento, onde o imaginário de progresso muitas vezes está associado ao acesso a tecnologias de ponta, como cirurgias robóticas, inteligência artificial na medicina e terapias genéticas (Illich, 1975). Embora essas inovações representem avanços importantes, a priorização exclusiva de tecnologias de alta complexidade pode criar uma disparidade na distribuição de recursos e gerar um desequilíbrio no atendimento, negligenciando áreas de atenção primária e saúde pública, que são essenciais para a equidade no acesso aos cuidados de saúde.
Além disso, o imaginário em torno da saúde afeta diretamente a maneira como as políticas públicas são elaboradas e implementadas em diferentes contextos culturais. As percepções sociais sobre doenças específicas, como HIV/AIDS, lepra ou saúde mental, influenciam diretamente o financiamento de pesquisas, as campanhas de conscientização e o tratamento oferecido às populações afetadas. Como Sontag (1989) argumenta em seu trabalho sobre as metáforas da doença, o estigma social associado a certas condições médicas pode levar à formulação de políticas de saúde excludentes ou insuficientes. O imaginário de estigmatização sobre doenças, em particular, pode atrasar diagnósticos, limitar o acesso a cuidados e reforçar discriminações sociais, como ocorreu durante as primeiras décadas da epidemia de HIV/AIDS, quando o preconceito em torno da doença influenciou negativamente as políticas de saúde pública.
Vale lembrar ainda a esfera das políticas de saúde mental que, por sua vez, revelam a relação entre o imaginário da “normalidade” e a forma como o Estado lida com o sofrimento psíquico. Durante grande parte do século XX, o imaginário de desordem e irracionalidade associada às doenças mentais resultou em políticas de confinamento, institucionalização e isolamento social dos pacientes. A partir de movimentos de reforma psiquiátrica e do desenvolvimento de novas abordagens psicossociais, esse imaginário tem sido desafiado, levando a políticas de desinstitucionalização e maior integração das pessoas com transtornos mentais na sociedade (Foucault, 1979). As mudanças nas políticas de saúde mental refletem não apenas avanços científicos, mas também transformações nos imaginários sociais que passaram a valorizar os direitos humanos e a dignidade dos indivíduos com transtornos mentais.
O imaginário sobre o envelhecimento também tem um impacto profundo nas políticas de saúde voltadas para a terceira idade. À medida que a população mundial envelhece, há uma crescente demanda por políticas que priorizem o envelhecimento saudável, o que exige uma reconfiguração do imaginário sobre a velhice. Tradicionalmente associada à fragilidade, à doença e à dependência, o envelhecer passou a ser visto de maneira mais positiva pelo campo da saúde, com maior foco na autonomia, na participação social e na promoção de uma vida ativa. Esse novo imaginário sobre o envelhecimento levou à criação de políticas públicas que incentivam a longevidade com qualidade de vida, ampliando o acesso a programas de saúde preventiva, de reabilitação e de apoio ao bem-estar emocional dos idosos (Haraway, 1991).
O impacto dessa transformação pode ser observado nas políticas de envelhecimento ativo implementadas por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS). A Estratégia Global e Plano de Ação sobre Envelhecimento e Saúde (2016-2030), elaborada pela OMS reflete a mudança de perspectiva em relação à velhice, que anteriormente era vista como um período de declínio e dependência, para um foco na promoção de um envelhecimento saudável e ativo.
Essa estratégia propõe uma abordagem baseada em envelhecimento ativo, cujo objetivo é maximizar a participação social, a autonomia e a saúde física e mental dos idosos. Um dos pilares dessa política é a criação de ambientes favoráveis ao envelhecimento, incentivando cidades e comunidades a adotarem medidas que promovam a mobilidade, o engajamento social e o acesso a serviços de saúde preventivos e de reabilitação para a população idosa.
Outro exemplo prático dessa abordagem é o Programa de Cidades e Comunidades Amigáveis ao Idoso, também promovido pela OMS, que encoraja a adaptação de ambientes urbanos para melhorar a qualidade de vida dos idosos, assegurando que eles possam permanecer independentes e ativos em suas comunidades. Esse programa tem sido implementado em diversas cidades ao redor do mundo, como Nova York, Londres e São Paulo, e demonstra como as políticas de envelhecimento ativo influenciam diretamente as estruturas sociais e urbanas.
Por fim, os imaginários futuristas modelizam percepções que reforçam expectativas sobre a medicina regenerativa, a edição genética e a inteligência artificial, moldando políticas de inovação científica e tecnológica. Essas visões futuras impulsionam governos a investir em pesquisas e projetos que possam transformar radicalmente o atendimento à saúde. Entretanto, como Baudrillard (1994) adverte, o imaginário de um futuro tecnológico idealizado pode ocultar as desigualdades e os desafios éticos que essas inovações trazem, exigindo que as políticas de saúde sejam continuamente revisadas para garantir que o progresso tecnológico não seja alcançado às custas de equidade e justiça social.
Como podemos ver, esses complexos campos semióticos, que são os imaginários, afetam profundamente tanto as práticas cotidianas de cuidado quanto as políticas públicas que organizam os sistemas de saúde. Eles influenciam a alocação de recursos, a aceitação de tecnologias emergentes, a formulação de políticas preventivas e a maneira como doenças e grupos sociais são tratados. Compreender a interação entre imaginário e política de saúde nos ajuda a promover um sistema de saúde mais inclusivo, justo e adaptado às necessidades reais da população.
Conclusão
À medida que avançamos no século XXI, o imaginário sobre saúde continua a ser moldado por forças culturais, tecnológicas e científicas em constante evolução. O futuro da saúde não se resume apenas à incorporação de novas tecnologias ou à descoberta de tratamentos inovadores; ele depende também da maneira como imaginamos e compreendemos a saúde como um conceito integral. Este processo de desenvolvimento de imagens mentais (modelos mentais) é influenciado pela interação entre saberes científicos, valores sociais, políticas públicas e expectativas culturais. O desafio está em equilibrar essas forças para criar um ambiente de saúde mais inclusivo, equitativo e eficaz, que atenda às necessidades de uma população diversificada e em transformação; um sistema que perceba a existência de múltiplas visões sobre o que é saúde, cura, doença, tratamentos etc.
O avanço das tecnologias emergentes, como a inteligência artificial (IA), a medicina de precisão e as terapias genéticas, abre novas perspectivas para o futuro da saúde, transformando a maneira como os médicos diagnosticam doenças, oferecem tratamentos personalizados e monitoram a saúde dos pacientes. Por outro lado, o imaginário sobre o papel do médico, do enfermeiro e de tantos outros profissionais de saúde também é afetado nesse processo de criação e recriação de imagens mentais. Estudos recentes indicam que a IA pode reduzir erros médicos e melhorar os desfechos de saúde ao analisar grandes volumes de dados para identificar padrões que seriam difíceis de perceber sem o auxílio de algoritmos computacionais avançados (TOPOL, 2019), por outro lado sistemas de autoavaliação despertam percepções sobre a capacidade de consulta com as próprias IAs. A incorporação dessas tecnologias na prática médica, portanto, também gera questões éticas e políticas, como a equidade no acesso às inovações, a proteção dos dados pessoais dos pacientes, a responsabilidade médica e tantos outros aspectos.
Ao mesmo tempo que o conceito de saúde está se expandindo para além do simples tratamento de doenças, o imaginário coletivo parece se alinhar com uma visão mais holística, que integra a promoção da saúde mental, o bem-estar emocional e a prevenção de doenças crônicas. Isso pode ser um indício de uma crescente conscientização sobre os determinantes sociais da saúde, como educação, renda e ambiente, que têm impacto direto na qualidade de vida das pessoas (BRAVEMAN et al., 2011), ou também da abertura de um campo de imprevisibilidade, em face das transformações socioculturais aceleradas e dinâmicas que, tal como um processo carcinogênico, faz explodir imagens descontroladas que não nos permitam diferenciar as demarcações mentais entre o real e o imaginário, a certeza científica e o terraplanismo, a imagem do campo das ciências e da saúde e o espaço do senso comum, da crendice, da pós-verdade.
A globalização das imagens, incluindo a das ciências e da saúde, ampliam as trocas simbólicas em redes internacionais cada vez mais robustas e velozes. Problemas globais, como pandemias, mudanças climáticas e desigualdade no acesso a cuidados de saúde, exigem soluções coordenadas em escala mundial, mas também a conscientização para o fato de que semiosferas variadas estão em jogo. São sistemas de signos e interpretações com divergências, confluências, justaposições em dinâmica relação de tradução cultural. Falar em ciência e saúde no mundo atual é usar signos comuns para tratar de assuntos polissêmicos; algumas vezes incompatíveis apesar da similaridade do signo verbal usado por diferentes comunidades.
Essa experiência contemporânea traz à tona a necessidade de se repensar o conceito de ciências e saúde em âmbito global, reconhecendo a existência de interdependência, mas também de incompatibilidades.
Ao concluir este ensaio sobre os imaginários nas ciências e na saúde, reconheço que possivelmente a maneira como imaginamos o futuro já nasça obsoleta e impactada diretamente pelas visões que herdamos, que estabelecemos hoje e que somos capazes de articular no diálogo com um cenário de multiculturalismo. A ciência e a tecnologia continuarão a desempenhar papéis centrais na definição dos rumos da saúde, mas não devemos perder de vista a importância dos fatores sociais, culturais e políticos que são moldados a partir de imaginários coletivos que modelizam as compreensões sobre saúde e bem-estar. Ainda são poucos os estudos, principalmente no Brasil, que se debruçam sobre tais questões. Muitas das vezes, ironicamente, pelo imaginário das ciências biológicas, exatas e naturais acerca de dimensões que demandam um estreito diálogo com as ciências humanas.
Essa é uma questão que cada um de nós precisa refletir. O futuro da saúde será moldado não apenas pelos avanços tecnológicos ou pelas políticas globais, mas também pela maneira como as pessoas imaginam suas próprias vidas e saúde. Ao imaginar um futuro em que a saúde seja acessível a todos, que leve em consideração as necessidades físicas, mentais e sociais de cada indivíduo, estamos contribuindo para a criação de políticas e práticas mais justas e eficazes. Cada pessoa pode desempenhar um papel ativo na construção desse futuro: educando-se, exigindo políticas de saúde mais inclusivas, apoiando a pesquisa científica e adotando hábitos de vida que promovam o bem-estar, mas certamente trata-se da construção de uma estrada necessariamente de mão dupla.
Referências:
- BACHELARD, Gaston. A Formação do Espírito Científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
- BAUDRILLARD, Jean. Simulacra and Simulation. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1994.
- CLARKE, Arthur C. Profiles of the Future: An Inquiry into the Limits of the Possible. New York: Harper & Row, 1962.
- FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
- HARAWAY, Donna J. Simians, Cyborgs, and Women: The Reinvention of Nature. New York: Routledge, 1991.
- ILLICH, Ivan. Medical Nemesis: The Expropriation of Health. New York: Pantheon Books, 1975.
- LATOUR, Bruno. Ciência em Ação: Como Seguir Cientistas e Engenheiros Sociedade Afora. São Paulo: UNESP, 2000.
- SONTAG, Susan. The Imagination of Disaster. In: Against Interpretation and Other Essays. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1966.
Descubra mais sobre Glaucio Aranha
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
