Discorrerei hoje sobre alguns tópicos que inquietam meus estudos e pesquisas atuais. Partirei de um ponto que é o conceito de “educação para o amanhã”, rubrica que compõe uma subárea dos estudos do futuro. Ao pensar em educação para o amanhã e cognição, um aspecto que me salta aos olhos: é o fato de que o ser humano está em constante mutação. Não somos, nem pensamos, como nossos ancestrais, e o sujeito do amanhã, seja docente ou discente, também não será.
Nosso cérebro, assim como o conjunto sistêmico que forma o ser humano — este complexo de células, órgãos, mente e níveis mais sutis — está em contínuo processo de adaptação ao mundo ao nosso redor. Essas mudanças, muitas vezes epigenéticas, repercutem nas gerações futuras. A experiência de distanciamento social que vivemos durante a pandemia não se encerrou com o fim da crise; ela reverberou em nós de forma sutil e já promove mudanças no nosso sentir e pensar, com ecos que atingirão gerações futuras, inserindo-nos num sistema de imprevisibilidade.
Quando observo, por exemplo, uma criança de quatro anos lidando com um celular de maneira inimaginável há poucas décadas, percebo que estamos diante de uma nova criança, que não se encaixa mais na modelização de décadas atrás sobre este termo, este signo. Tal fato me faz refletir, pois também tenho filhos que passaram há pouco por essa idade. Recordo que, aos quatro anos, eu era muito diferente das gerações anteriores, assim como uma criança de quatro anos na Idade Média ou na Roma Antiga era outra. Esse pensamento nos leva a uma tendência de nos colocar como referência ao imaginarmos o passado de forma tradicional ou ficcional. Dizemos: “não era assim que se fazia”, mas esse “assim” está sempre relacionado a nós mesmos, a nossa própria história, à nossa fabulação do que é ou foi – se é que existe um “é ou foi”. Trata-se de uma suposição – já derrubada por numerosos estudos – de que nossas lembranças são dignas de crédito; não são.
O que chamamos de “tradicional” é uma construção tão mutável quanto nossos corpos e mentes. Ao pensarmos numa nova educação hoje, já lidamos com algo que nascerá obsoleto para as gerações futuras. Qualquer estudo projetivo parte da nossa autorreferencialidade. No entanto, isso não deve ser visto como ceticismo, pelo contrário. Ter consciência dessa constante mudança é compreender que somos a única espécie, até o momento comprovada, capaz de elaborar processos metacognitivos — de pensar sobre nós mesmos e sobre o próprio ato de pensar. Essa particularidade que nos individualiza, também nos permite projetar o futuro para docentes e discentes, os chamados agentes da educação para o amanhã.
Ao refletir sobre cognição nesse contexto, duas abordagens me chamam a atenção. A primeira diz respeito às formas narrativas de expressão e interpretação do mundo nas gerações futuras. A segunda envolve a análise das mudanças nas representações mentais em operação hoje. Retomando o exemplo da criança de quatro anos com um celular, destaco como esse sujeito já está se adaptando a uma tecnologia que organiza o discurso global de forma completamente distinta. Isso afeta sua capacidade de interpretar e produzir sentido sobre o mundo, pois, ao interagir com o dispositivo, ele escolhe, seleciona e é parte ativa no processo de construção de mundo. Esse tipo de interação é diferente daquela de quem cresceu com a tecnologia do livro impresso, por exemplo.
Ao se adaptar cognitivamente a um universo em que sua intervenção é essencial para a atualização do conteúdo — se ele não clica, nada acontece —, essa criança desenvolve um novo tipo de relação com a tecnologia. A posição desse indivíduo diante do dispositivo é distinta, e ele passa por um processo constante de seleção e filtragem tão rápido que, muitas vezes, a escolha em si é valorizada em detrimento da reflexão crítica sobre o que está sendo escolhido e por quê.
Vale destacar que não estou sendo refratário ao uso de celulares ou à tecnologia em geral. A questão que destaco é uma matriz de pensamento já presente desde a década de 1960, quando McLuhan afirmou que o meio pelo qual acessamos o mundo interfere diretamente na nossa forma de construção de representações e de interpretação.
A segunda questão que me provoca e inquieta é a análise das mudanças nas representações mentais. Ao assumir que a compreensão do discurso pelo receptor envolve a expressão de um modelo mental do emissor, cabe ao receptor extrair desse discurso uma nova síntese interpretativa. Assim, compreender essas mudanças, tanto sincrônicas quanto diacrônicas, é essencial para elaborar estudos prospectivos. Em outras palavras, quando lidamos com um recurso tecnológico que transmite determinado conteúdo, temos diante de nós um produto – o conteúdo – que foi criado a partir de outros modelos mentais, carregando consigo um modelo de visão de mundo, um processo modelizante. No entanto, ao interpretar o conteúdo, faço isso por meio de uma negociação entre os modelos dados e os meus próprios esquemas mentais, e o resultado deste conflito veloz e imperceptível para nossa consciência é nosso entendimento final, nossa síntese.
Os modelos mentais aos quais me refiro são como arquiteturas cognitivas, construídas ao longo da vida com base em experiências, percepções e conhecimentos adquiridos. Eles são consolidados no nosso sistema central, mais especificamente na memória. Ao falar da necessidade de estudar essas mudanças de forma diacrônica e sincrônica, refiro-me ao estudo de recortes, de gerações específicas, como a de 2000 ou 2010, bem como às grandes transformações históricas, como a passagem da oralidade para a escrita, da escrita para o digital, e as muitas outras interfaces tecnológicas, como realidade virtual e mídias imersivas.
Pensar a educação para o amanhã exige atenção a essas mudanças, pois elas ocorrem num espaço de conflito simbólico, onde diferentes gerações colidem, trazendo consigo formas diversas de pensar e agir. Estar numa escola hoje é diferente de estar numa escola na década de 1950, assim como era diferente ser um aprendiz de artesão na Idade Média. Não apenas pensamos de forma distinta enquanto aprendemos; estamos nos transformando ao longo do processo de aprendizagem. Portanto, meu interesse principal é entender esse espaço de transformação constante e o que ele significa para a educação e a cognição. Outros tópicos, como esquemas cognitivos, também são relevantes, mas deixarei para discutirmos em outro momento. Neste texto, meu foco são os modelos.
Esses modelos mentais, construídos ao longo da vida, influenciam como interpretamos o mundo ao nosso redor e como nos relacionamos com o conhecimento. Ao analisar a evolução desses modelos, tanto sincronicamente — dentro de uma mesma geração — quanto diacronicamente — ao longo do tempo —, podemos entender melhor como diferentes formas de pensar e aprender se desenvolvem. Por exemplo, a transição das sociedades orais para a escrita, e da escrita para o digital, trouxe mudanças profundas na maneira como organizamos e transmitimos o conhecimento.
Hoje, vivemos uma aceleração dessas transformações, com o surgimento de novas interfaces, como as mídias imersivas e a realidade virtual. Essas tecnologias oferecem novas formas de organização do conteúdo, desafiando os modelos mentais estabelecidos e criando novos paradigmas de aprendizagem. Ao pensar na educação para o amanhã, é fundamental compreender essas mudanças, pois elas não são apenas conflitos entre gerações, mas colisões entre diferentes formas de pensar e de estar no mundo. Não é raro encontrarmos reflexões sobre a imbricação entre tecnologia e educação, a partir de “a favor” e “contra”. A questão, todavia, não deveria estar neste tipo de maniqueísmo. Compreender as mudanças é tão – ou mais – importante do que advogar posições. Em muitos estudos educacionais o apriorismo (pró ou contra) se coloca a partir de uma subjetividade frouxa, sem evidências.
A experiência de aprender, por si só, também se transforma não pela introdução deste ou daquele método, mas por conta de mudanças na visão de mundo, na percepção do significa estar-no-mundo e ser-no-mundo. Estar numa sala de aula hoje é uma experiência única e absolutamente distinta de outras épocas em aspectos simultaneamente positivos e negativos. E a sala de aula de amanhã, assim como a de ontem, segue a mesma orientação: serão/são/foram divergentes de seu status quo ante, daquilo que lhe antecedeu. O processo de aprendizagem envolve um constante choque entre a bagagem cultural e as novas informações que recebemos. É nesse espaço de conflito que ocorre o crescimento e a transformação pessoal e cognitiva: a geração de novas sínteses a partir de conflitos simbólicos e imprevisibilidades.
Dessa forma, entender essas mudanças e o que elas significam para a educação e para o desenvolvimento da cognição nos contextos educacionais contemporâneos, é algo que me interessa. Não há como navegar sem um instrumento que nos mostre as orientações: as estrelas Compreender as mudanças paradigmáticas nesse sentido é uma condição sine qua non para que possamos pensar uma educação para o amanhã, já que para pensar o amanhã, eu preciso estar aberto para sentir e compreender primeiro o hoje para além do senso comum.
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