A relação entre imagem e saúde vai além da estética e da ciência: ela é um espelho da condição humana, uma linguagem universal que atravessa o tempo e transforma nossa percepção do corpo, da doença e do cuidado. Como as artes visuais podem nos ajudar a compreender a evolução dos saberes médicos? De que forma a criação e a contemplação de imagens podem prevenir e tratar doenças, curando não apenas o corpo, mas também a mente? E, por fim, como essas representações podem ressignificar a formação de futuros profissionais da saúde, trazendo novas formas de ver e intervir na complexidade humana? Este texto propõe uma viagem provocativa por essas questões, convidando você a explorar os vínculos entre arte, saúde e educação com uma lente crítica e sensível.

A Imagem e a História da Saúde

As artes visuais, ao longo da história, dentre tantos outros papéis, pode ser tomada também como forma de documentação e interpretação das práticas de saúde. Se por um lado a representação gráfica da saúde humana mapeia as transformações dos saberes médicos, por outro revela os modos pelos quais as sociedades entenderam o corpo, a doença e a cura. A partir de desenhos anatômicos, pinturas e esculturas, as imagens se tornaram tanto registros como expressões dos avanços científicos e das concepções culturais da saúde.

Quando olhamos, por exemplo, para as ilustrações anatômicas de Leonardo da Vinci (Figura 1), vemos não apenas a representação científica do corpo humano, mas um reflexo da curiosidade renascentista pela natureza e pela condição humana. Nesse sentido, as imagens médicas funcionam como um elo entre ciência e arte, materializando a evolução dos conhecimentos de saúde ao longo dos séculos. Elas permitem visualizar as fases de progresso, desde as primeiras concepções místicas e religiosas da doença até os avanços da medicina moderna, trazendo o conhecimento para o plano sensível.

Figura 1 – Desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci (Foto: Reprodução)

Essas representações também carregam as marcas das mudanças sociais e filosóficas. A arte durante muito tempo foi tida como um espelho das preocupações humanas, e a saúde como um dos temas centrais na vida social. No século XX, por exemplo, obras como as de Frida Kahlo (Figura 2) ilustram, de maneira visceral, a experiência da dor e da doença, ao mesmo tempo que questionam o papel da medicina em uma sociedade mecanicista e desumanizante. Ao retratar suas dores físicas e emocionais, obras como a de Kahlo questionam a objetividade médica, expondo o sofrimento subjetivo e a vulnerabilidade humana que muitas vezes ficam à margem do discurso científico.

Da mesma forma, representações de doenças e corpos marginalizados ao longo dos séculos desafiaram os padrões de normatividade, revelando como a prática médica pode, por vezes, ser impregnada de preconceitos sociais, culturais e de gênero. Esse potencial das artes para revelar as tensões éticas e humanitárias desconstrói a prática médica como um domínio de poder estritamente biológico e humaniza o debate, abrindo espaço para a inclusão de novas vozes e perspectivas. Nesse sentido, podemos observar ao longo da história, um grande potencial das artes visuais para desafiar as narrativas hegemônicas e revelar os dilemas éticos e humanitários que permeiam a prática médica.

Figura 2 – Sem Esperanças, 1945.

As imagens médicas frequentemente refletiram o poder da ciência e da tecnologia de cada época sobre o corpo e a doença. Em alguns casos, a noção de saúde esteve fortemente atrelada à esfera do divino. A “Cura do cego de Nascença” (“La curación del ciego”) (1570), de El Greco, por exemplo, retrata o milagre de Jesus curando um cego. Trata-se de um exemplo claro de como a saúde e a cura eram vistas como manifestações diretas do poder divino, uma vez que a obra apresenta a intervenção de forças sobrenaturais sobre o corpo físico. Caravaggio, em “São Francisco em êxtase” (“San Francesco in estasi”) (1596) apesar de não tratar diretamente da cura física, relaciona sofrimento e espiritualidade como uma conexão entre o corpo e o divino. Em “A Peste em Ashdod” (“La peste d’Asdod”) (1630), Nicolas Poussin retrata uma cena da Bíblia (1 Samuel 5), em que uma praga é enviada aos filisteus como punição divina. Assim, Poussin utiliza esse tema para ilustrar a noção de doença como castigo divino. Estes e muitos outros artistas produziram obras que podemos ler como expressões de um pensamento de suas épocas. E, neste sentido, muitos artistas desafiaram visões estabelecidas ao trazer à tona as nuances éticas e humanitárias negligenciadas pela abordagem biomédica.

Essa capacidade da arte de penetrar nas camadas mais profundas da experiência humana prepara o terreno para o seu uso como um recurso preventivo e terapêutico. Afinal, a arte, ao possibilitar expressões que ultrapassam a linguagem verbal, pode atuar como um meio de cura, tanto no campo emocional quanto no mental.

As Artes Visuais como Abordagens Preventivas e Terapêuticas

As artes visuais têm um potencial significativo não apenas como uma forma de documentar a saúde, elas podem também ser abordadas como um recurso preventivo e terapêutico. Ao mergulharmos no conceito de “arte como cura”, entendemos que a interação sensorial e emocional proporcionada por imagens pode funcionar como uma forma de cuidado e prevenção. Em ambientes hospitalares, por exemplo, pode contribuir para a implementação de práticas que buscam criar espaços mais acolhedores e humanizados tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde.

A arteterapia, nesse contexto, se destaca como uma abordagem terapêutica que utiliza o processo criativo para promover o bem-estar mental e emocional. A criação de imagens, como desenhos ou pinturas, permite que os indivíduos expressem seus sentimentos, muitas vezes de maneira não verbal. Ao mesmo tempo, auxilia no enfrentamento de traumas e na redução do estresse. Este tipo de abordagem é utilizado para tratar uma ampla gama de condições, como depressão, ansiedade e transtornos psicossomáticos, mostrando que as artes visuais podem ser uma ferramenta poderosa de intervenção na saúde mental.

Além disso, as artes visuais podem atuar na prevenção ao fomentar a conscientização sobre temas de saúde. Campanhas de saúde pública frequentemente se apoiam em imagens impactantes que buscam sensibilizar a população sobre a importância de hábitos saudáveis, da vacinação, ou de exames preventivos. A força comunicativa de uma imagem, muitas vezes, transcende a linguagem verbal e atinge diretamente o imaginário coletivo, despertando emoções e motivando comportamentos mais saudáveis.

Por fim, o ato de observar obras de arte também pode trazer benefícios terapêuticos. Pesquisas indicam que a simples contemplação de certas imagens, como cenas da natureza ou pinturas que evocam tranquilidade, pode reduzir a pressão arterial e diminuir o nível de cortisol no corpo. Gillis e Gatersleben (2015) fizeram uma revisão da literatura sobre como o design biofílico, incluindo o uso de imagens de natureza em ambientes construídos, pode promover a saúde e o bem-estar, influenciando níveis de cortisol e outras respostas fisiológicas ao estresse. Ulrich (1984) mostrou que pacientes hospitalizados que tinham vistas para a natureza se recuperavam mais rapidamente e necessitavam de menos analgésicos do que aqueles sem vistas naturais, evidenciando a influência das imagens da natureza no bem-estar. Brown, Barton e Gladwell (2013) examinaram como a visualização de cenas naturais ajudam na recuperação de estresse, reduzindo a pressão arterial e auxiliando na recuperação da frequência cardíaca.

Assim, as artes visuais, além de serem um registro histórico, tornam-se uma estratégia ativa para promoção da saúde, prevenção de doenças e tratamento de desordens físicas e mentais.

Assim, as artes visuais, além de serem um registro histórico, tornam-se uma estratégia ativa para promoção da saúde, prevenção de doenças e tratamento de desordens físicas e mentais. Ao nos conectar com imagens que evocam tranquilidade, beleza e harmonia, ou mesmo que impelem à reflexão e autoanálise, encontramos um caminho de cura que transcende as palavras e toca diretamente nossa essência humana. Seja através da contemplação de uma paisagem serena, de uma obra de arte que nos emociona ou da expressão criativa que nos permite externalizar nossos sentimentos mais profundos, a arte se revela como uma poderosa aliada no fortalecimento do corpo e da mente. Ela nos convida a desacelerar, refletir e encontrar equilíbrio em meio ao caos, abrindo novas possibilidades para vivermos de maneira mais plena e consciente. Ao integrar as artes visuais na prática de saúde, ampliamos nosso horizonte de cura, reconhecendo que o bem-estar humano está profundamente ligado ao poder transformador das imagens e da criatividade.

Referências

Brown, D. K., Barton, J. L., & Gladwell, V. F. (2013). Viewing nature scenes positively affects recovery of autonomic function following acute-mental stress. Environmental Science & Technology, 47(11), 5562-5569. DOI: 10.1021/es305019p

Gillis, K., & Gatersleben, B. (2015). A review of psychological literature on the health and wellbeing benefits of biophilic design. Buildings, 5(3), 948-963. https://doi.org/10.3390/buildings5030948

Ulrich, R. S. (1984). View through a window may influence recovery from surgery. Science, 224(4647), 420-421. DOI: 10.1126/science.6143402


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