O artigo “Espaços Semióticos Modelizados Pelos Meios”, de Irene Machado, discute a complexa interdependência entre comunicação e espaço, destacando como os meios eletrônicos audiovisuais e digitais moldam a cultura contemporânea e a percepção espacial. A autora propõe uma reflexão sobre a noção de espaço de informação e os regimes de espacialidade sensorial que vão hoje bem além da noção de superfícies visuais e lugares geográficos, problematizando a noção de espaço contínuo e suas implicações na comunicação e cultura. Quando hoje pensamos, por exemplo, em ciberespaço estamos diante de um espaço não definível geograficamente ou em termos de superfície.
Machado argumenta que a comunicação está intrinsecamente ligada aos modelos de espaço, influenciados pelos avanços tecnológicos dos meios eletrônicos e digitais. Essa transformação resulta na geopolítica substituindo a geografia tradicional, modificando nossa compreensão e uso do espaço. Quando médico e paciente estão em uma videoconsulta o espaço do consultório se transforma, a partir de de uma “local que só existe midiaticamente. O conceito de espaço de informação, que vai além dos limites visuais e geográficos, incorpora dimensões sensoriais proporcionadas pelos meios audiovisuais, gerando muitas vezes, noções de pertencimento ou imersão em mundos imateriais, como nos games imersivos, realidade virtual, realidade expandida e outros. Os meios eletrônicos criam, assim, “espaços luminosos” que redefinem a visualidade e o posicionamento, apresentando um campo de comunicação sensorial que desafia os limites geográficos tradicionais.
A autora destaca que os meios de comunicação não apenas criam estes espaços, mas definem ao mesmo tempo a natureza espacial dos seres que interagem nesses ambientes. Nesse sentido, o espaço audiovisual eletrônico surge como um campo de comunicação sensorial que desafia a geografia tradicional. Essa transformação leva à criação de um espaço semiótico, onde as fronteiras e limites são redefinidos pelas tecnologias de comunicação, promovendo uma complexa relação entre espaço físico e espaço cultural. A digitalização e a introdução de novos signos e sistemas gráficos reforçam essa dinâmica, transformando o espaço de informação em um campo de força de disputas geopolíticas.
Se pensarmos os apontamentos do ensaio de Irene Machado, aplicando-o ao contexto da educação em saúde, parece-me que esta pode se beneficiar significativamente das reflexões sobre a modelização semiótica do espaço e a transformação proporcionada pelos meios eletrônicos e digitais. Isto implica pensar a incorporação de meios audiovisuais e digitais na educação como formas para criar ambientes de aprendizagem mais dinâmicos e interativos, como simulações e realidade virtual, proporcionando experiências sensoriais que reforçam a compreensão de conceitos complexos, levando em consideração novas percepções para estes espaços virtuais.
Os espaços virtuais de aprendizagem parecem incentivar a exploração de soluções em um ambiente de informação contínuo e interconectado, semelhante ao espaço semiótico descrito por Machado, mas ela também nos fala em um campo de tensões que ali s estabelecem e que não deve ser desconsiderado. Tecnologias como aplicativos móveis e plataformas de e-learning mais do que simples recursos pedagógicos são dispositivos que podem modelizar o espaço educacional, tornando-o acessível e flexível, facilitando o aprendizado contínuo e a atualização de profissionais de saúde, ou o seu contrário. Isso mobiliza a necessidade de atenta reflexão para os enviesamentos promovidos pela introduç~çao das tecnologias na educação.
A criação de espaços de informação interativos, como portais de saúde e redes sociais especializadas, pode melhorar a disseminação de informações de saúde, engajando comunidades e promovendo comportamentos saudáveis. Todavia, estes ambientes ensejam reflexão sobre a culturalização do espaço educacional, considerando as diversidades culturais e as necessidades específicas de diferentes populações, para que seja promovida uma educação em saúde inclusiva e eficaz.
O artigo de Irene Machado nos convida, assim, a repensar a relação entre comunicação e espaço à luz das transformações tecnológicas e culturais. Suas reflexões abrem caminho para inovações pedagógicas que aproveitem as potencialidades dos meios digitais e audiovisuais. A educação em saúde pode, assim, se beneficiar da criação de espaços semióticos que promovam uma aprendizagem mais sensorial, interativa e contextualizada, e que contribua para a formação de profissionais mais preparados e conscientes das complexas dinâmicas do mundo contemporâneo com mais pesquisas sendo realizadas para compreender a dimensão modelizante de sentidos nestes espaços.
Ao considerar a modelização semiótica do espaço e suas aplicações na educação em saúde, percebo que a transformação dos meios de comunicação influencia diretamente as práticas educacionais. A interseção entre tecnologia, semiótica cultural e educação em saúde proporciona, assim, um campo fértil para o desenvolvimento de reflexões que tentem responder às demandas contemporâneas de formação e atualização profissional.
Apesar de apresentar certo hermetismo para “não iniciados” na semiótica cultural, a análise proposta por Machado oferece uma boa base teórica para repensar e inovar a educação em saúde, contribuindo para a criação de espaços semióticos educacionais, que integrem tecnologias digitais e audiovisuais, pode resultar em uma educação mais dinâmica, acessível e relevante, alinhada às necessidades e desafios do século XXI.
Referência:
MACHADO, I. Espaços Semióticos Modelizados Pelos Meios. Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. XXIII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal do Pará, 27 a 30 de maio de 2014. Disponível em: http://www.inpecc.pro.br/media/pesquisas/EspaCos%20SemiOticos%20Modelizados%20Pelos%20Meios%20-%20Irene%20Machado.pdf
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