Por Glaucio Aranha
O artigo científico “Uma contribuição da semiótica para a comunicação visual na área da saúde,” de autoria de Sandra Regina R. Oliveira, Débora da R. Gaspar e Guilherme Augusto R. Oliveira, publicado na revista Interface (Botucatu), 13 (29), em junho de 2009, realiza uma análise e crítica sobre o uso da semiótica na comunicação visual em campanhas de saúde. A obra é um chamado à reflexão sobre como a linguagem visual é utilizada para transmitir mensagens na área da saúde, com foco especial em campanhas educativas.
O artigo inicia ressaltando a importância da semiótica discursiva e da semioestética na compreensão dos elementos significativos presentes em imagens usadas em processos de comunicação na saúde. Destaca-se a intersecção complexa entre disciplinas científicas na criação e veiculação de campanhas preventivas na área da saúde, enfatizando a responsabilidade social que recai sobre essas iniciativas. Os autores destacam preliminarmente os fundamentos da semiótica e da semioestética, baseando-se nos postulados de Jean-Marie Floch. Justificam a escolha de Floch como referencial teórico particularmente pertinente, dado o seu trabalho seminal na significação visual e na semiótica discursiva. A aplicação de seus conceitos ao campo da saúde é um esforço louvável para transcender as barreiras entre a teoria semiótica e as práticas aplicadas de comunicação.
Os autores salientam que, embora publicitários e designers geralmente sejam os autores do discurso visual, profissionais da saúde e da educação também devem estar cientes dos fenômenos de significação. Isso permitiria que eles avaliassem de forma mais crítica o trabalho dos criadores de imagens, garantindo que as necessidades sociais sejam traduzidas adequadamente em mensagens visuais.
A semiótica discursiva é apresentada no artigo como uma ferramenta útil na análise da comunicação visual. Destaca, ainda, uma série de conceitos operacionais essenciais, como o “contrato de veridicção,” que se refere à relação entre o emissor e o receptor em relação à veracidade das imagens, enfatizando que as imagens não representam a realidade, mas criam um “dizer-verdadeiro,” e o enunciatário responde com um “crer-verdadeiro.”. São explorados também outros conceitos operacionais da semiótica discursiva, como o plano de expressão e conteúdo, e as oposições semânticas de base, como euforia e disforia. Esses conceitos são essenciais para entender como as mensagens visuais são construídas e recebidas pelo público. Sugere-se que a análise de textos visuais de campanhas preventivas pode contribuir com um olhar crítico sobre como essas mensagens persuadem e comunicam efetivamente com o grande público.
A noção de “euforia” e “disforia” como oposições semânticas de base na análise de imagens descrevem como os elementos visuais em uma imagem podem gerar efeitos de sentido, incluindo alegria, prazer (euforia) ou tristeza e ansiedade (disforia). É apresentado um modelo proposto, a partir do pensamento do semioticista francês Jean-Marie Floch, que associa as categorias estéticas à significação de medicamentos, sendo discutidas tais noções a partir de um exemplo de aplicação prática da semiótica na análise visual.
O artigo enfatiza, ainda, a importância de escolher cuidadosamente os elementos estéticos na criação de imagens de campanhas educativas na área da saúde. A decisão de usar elementos eufóricos ou disfóricos deve ser baseada na intenção do discurso em relação ao público-alvo. As implicações éticas e responsabilidades sociais associadas à persuasão por meio de imagens são destacadas.
Um dos pontos altos do artigo é a aplicação prática do modelo teórico em um cartaz de uma campanha preventiva contra doenças relacionadas ao tabagismo. A análise detalhada do cartaz revela como as relações visuais e verbais estabelecem um processo de persuasão, destacando a importância de considerar a unicidade dos indivíduos dentro da “massa” populacional.
Por fim, o artigo conclui chamando a atenção para a necessidade de pesquisas interdisciplinares que explorem a eficácia das campanhas educativas em saúde. Os autores enfatizam que a semiótica pode desempenhar um papel fundamental na análise da significação dessas campanhas e na compreensão de como elas se comunicam com o público. É oferecida uma perspectiva crítica e informada sobre o uso da semiótica na criação e avaliação de campanhas de saúde, sendo uma leitura potencialmente instigante para profissionais de comunicação, saúde e educação interessados em aprimorar a eficácia das mensagens visuais na promoção da saúde pública.
Referência:
OLIVEIRA, Sandra Regina Ramalho, GASPAR, Débora da Rocha, OLIVEIRA, Guilherme Augusto Ramalho. Uma contribuição da semiótica para a comunicação visual na área da saúde. Interface (Botucatu), 13 (29), jun 2009. DOI:10.1590/S1414-32832009000200013
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