As representações mentais – construtos simbólicos que moldam nossa compreensão e interação com o mundo – são produtos dinâmicos do tempo e da cultura. O estudo das mudanças históricas dessas representações é importante para uma compreensão mais profunda da evolução humana – tanto em um sentido sociocultural quanto em um sentido cognitivo. Este papel tem sido crucial no desenvolvimento dos estudos históricos e cognitivos, proporcionando um novo prisma para examinar a complexa tapeçaria da experiência humana.
A análise das representações mentais ao longo do tempo permite uma visão mais profunda sobre como as sociedades e culturas evoluíram, como seus textos culturais (signos culturais) são construídos. Nossas representações mentais são influenciadas pelas normas sociais, valores culturais e conhecimentos tecnológicos de nossas respectivas épocas. Ao estudar as mudanças nas representações mentais, podemos rastrear as transformações na estrutura social, as revoluções culturais e o progresso tecnológico ao longo da história.
Elaborar o mapeamento do percurso histórico de formação das representações mentais de uma cultura é adentrar um labirinto intrincado de significações, em que cada caminho que escolhemos traz consigo uma miríade de possibilidades interpretativas. Se partimos do pressuposto que o entendimento do discurso por parte do receptor se materializa como um modelo mental que é expresso por meio desse discurso, estamos lidando com um complexo processo de transmutação de pensamento em linguagem, e vice-versa.
Neste cenário, a essência do discurso é capturada e decodificada pelo novo receptor – não como uma entidade isolada, mas como parte integrante de um diálogo contínuo entre diferentes modelos mentais (ou semiosferas). Este diálogo é o gerador da criação de uma nova síntese interpretativa, uma nova compreensão que é simultaneamente derivada e distinta das compreensões anteriores.
Mas aqui surge uma questão fundamental: como podemos rastrear e compreender as mudanças nesses modelos mentais ao longo do tempo? A resposta a esta pergunta é duplamente complexa, pois deve levar em conta tanto as mudanças sincrônicas – aquelas que ocorrem ao mesmo tempo em diferentes contextos – quanto as mudanças diacrônicas, que se desdobram ao longo do tempo dentro de um único contexto.
O entendimento dessas mudanças é fundamental não apenas para uma apreciação mais profunda do passado e do presente, mas também para a articulação de um estudo prospectivo eficaz. Este tipo de estudo possibilita a elaboração de linhas de possibilidades futuras, uma espécie de mapa de rota que nos guia através do incerto território do futuro, mas que nos permite sugerir novas soluções.
Esta análise de mudanças sincrônicas e diacrônicas nas representações mentais e suas expressões discursivas é uma tarefa monumental, mas absolutamente necessária. É um empreendimento que exige não apenas habilidade e paciência, mas também a coragem de enfrentar a complexidade inerente à experiência humana. É com esse olhar que devemos encarar o estudo das mudanças nas representações mentais, como uma busca incessante pelo entendimento do ser humano, suas perspectivas e, por fim, o seu futuro.
Esse tipo de abordagem fornece, ainda, insights valiosos sobre o desenvolvimento cognitivo humano e a maneira como processamos e interpretamos os signos que nos circundam. As representações mentais são ferramentas fundamentais que usamos para entender o mundo ao nosso redor. Ao entender como essas representações mudaram ao longo do tempo, podemos começar a elucidar os mecanismos subjacentes à cognição humana e ao aprendizado.
Em Research in clinical reasoning: past history and current trends, por exemplo, Geoffrey Norman identifica três amplas representações mentais que orientam as pesquisas sobre raciocínio clínico, a saber: (a) compreensões do raciocínio como uma habilidade geral (o processo de ‘raciocínio clínico’); (b) representações que concebem o raciocínio clínico como consequência de processos de armazenamento (memória); e (c) representações relacionadas a qualificadores semânticos, roteiros, esquemas e exemplares.
Estudos dessa natureza nos permitem observar e entender as mudanças históricas nas representações mentais e suas implicações para a prática educacional. Atualmente, nosso sistema educacional é moldado por um conjunto particular de representações mentais que podem não ser adequadas para as demandas em constante mudança de nossa sociedade contemporânea. Ao compreender as mudanças históricas em nossas representações mentais, podemos, por exemplo, desenvolver práticas pedagógicas mais eficazes que se alinhem com as formas como nossos alunos compreendem e interagem com o mundo.
Este campo de estudo tem implicações importantes também para a nossa compreensão da história da ciência. A ciência não é apenas uma coleção de fatos e teorias, mas um processo dinâmico moldado por nossas representações mentais do mundo natural. Ao estudar as mudanças em nossas representações mentais, podemos rastrear o curso das revoluções científicas e entender como nossas visões mutáveis do mundo natural influenciaram o curso da descoberta científica.
O estudo das mudanças históricas nas representações mentais oferece, portanto, uma poderosa ferramenta para entender a evolução da cultura humana, da cognição, da educação, da ciência e tantos outros recortes possíveis. Tal pesquisa não só enriquece nossa compreensão de nós mesmos como indivíduos e como sociedade, mas também tem o potencial de informar e influenciar nossa abordagem para a educação e a investigação científica no futuro.
Referências
Hill, D.H. and Cole, M. (1995), Between Discourse and Schema: Reformulating a Cultural-Historical Approach to Culture and Mind. Anthropology & Education Quarterly, 26: 475-489. https://doi.org/10.1525/aeq.1995.26.4.05x1065y
Norman, G. (2005), Research in clinical reasoning: past history and current trends. Medical Education, 39: 418-427. https://doi.org/10.1111/j.1365-2929.2005.02127.x
Zhirkov, K., & Valentino, N. (2022). The Origins and Consequences of Racialized Schemas about U.S. Parties. Journal of Race, Ethnicity, and Politics, 7(3), 484-504. doi:10.1017/rep.2022.4
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