Em 1999, foi publicado na revista científica francesa Semiotica (ISSN 0037-1998), o artigo “Towards biosemiotics with Yuri Lotman”, de Kalevi Kuul. O autor investiga as concepções de Y. Lotman sobre as relações entre a semiótica e a biologia, destacando que Lotman apresentou uma série de questões significativas e introduziu novos conceitos (como a semiosfera, esfera de comportamento, a relação entre simetria e assimetria, diálogo e independência dos indivíduos, hipóteses para a criação de novos textos, entre outros). Esses elementos constituem uma base sólida e até mesmo um quadro apropriado para orientar análises futuras dos problemas biosemióticos.

O artigo “Towards biosemiotics with Yuri Lotman” apresenta uma análise abrangente sobre a interseção entre a biosemiótica e a semiótica, abordando a perspectiva emergente de que a semiose começa onde a vida começa. O autor ressalta que essa visão é respaldada tanto por semioticistas americanos quanto europeus, além dos próprios biosemioticistas. O autor também destaca como alguns semioticistas renomados, como Charles Morris, Karl Bühler e Roman Jakobson, abordaram questões biológicas em suas obras, contribuindo para essa convergência de campos.

O texto demonstra uma compreensão profunda dos debates contemporâneos em torno da relação entre a semiose e a biologia, mencionando várias obras e autores relevantes, incluindo Terrence Deacon, Jakob von Uexküll, Jesper Hoffmeyer e Thomas Sebeok, para ilustrar como a biosemiótica está emergindo como uma disciplina interdisciplinar valiosa. O autor aponta como diferentes perspectivas, como o enfoque de Peirce no “pansemiotismo” e as noções de “fisiosemiose”, têm influenciado essa convergência entre a biologia e a semiose.

A abordagem histórica adotada, identifica exemplos de figuras notáveis da história da semiótica e suas conexões com a biologia, fornece uma visão única sobre a trajetória do desenvolvimento da interação entre esses campos. A discussão sobre Henri F. de Saussure, pai de Ferdinand de Saussure, e sua influência possível sobre o trabalho de seu filho, é particularmente intrigante. No entanto, o autor poderia ter aprofundado mais essa relação e explorado como as ideias do pai podem ter sido transmitidas ao filho.

Além disso, a referência a várias obras e autores ao longo do artigo pode parecer um tanto dispersa em alguns momentos. Uma análise mais aprofundada de como cada um desses autores contribuiu para a interseção entre a biossemiótica e a semiose teria enriquecido ainda mais o texto, sem contudo retirar o mérito global do estudo. Também teria sido interessante examinar algumas críticas ou controvérsias em relação a essa convergência de campos, tendo em vista que é um campo emergente que se defronta com algumas resistências, isto proporcionaria uma visão mais abrangente dos debates que gravitam em torno da biossemiótica como campo de conhecimento.

No plano geral, o artigo oferece uma visão perspicaz e bem embasada sobre a crescente relação entre a semiose e a biologia. Destaca de modo fundamentado, a relevância dessa interseção por meio de exemplos históricos e contemporâneos, fornecendo aos leitores uma compreensão mais profunda das implicações dessa convergência.

O texto pode ser obtido no link: http://zbi.ee/~kalevi/semi.1999.127.115.pdf

Kull, Kalevi (1999). Towards biosemiotics with Yuri Lotman. Semiotica 127 (1-4):115-132. DOI: https://doi.org/10.1515/semi.1999.127.1-4.115


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