Com grande prazer, participei hoje da banca de defesa da monografia do aluno Vinicius de Castro e Silva, do Instituto de Biologia, da UFRJ, como o título “ALIMENTANDO-SE DE CORES: a influência das cores e dos hábitos alimentares na percepção de sabores por adolescentes“. Tive o prazer de participar da banca ao lado do Prof. Alfred Sholl-Franco (orientador) (IBCCF/UFRJ) e da Profa. Natália Liacone (CEDERJ/UFRJ). O trabalho mostra uma pesquisa empírica interessante que identifica a influência das cores na percepção de sabores. Foi descoberto, para minha surpresa, que comparando jovens com hábitos alimentares saudáveis e não saudáveis, estes últimos apresentaram maior grau de inferência de sabores a partir de cores e aromas artificiais quais eram os alimentos relacionados. Esse dado é interessante porque demonstra que os jovens que tem melhores hábitos alimentares conhecem os aromas originais e, talvez por isso, tenham tido maior dificuldade em associar os sabores a partir das cores e aromas artificiais atribuídos a dados alimentos. Abaixo, o resumo do estudo.
RESUMO
Uma experiência sensorial multidimensional é despertada na prática da alimentação. Em pouco tempo, os cinco sentidos são despertados, criando diferentes sensações em um conjunto complexo de interações. Neste sentido, este trabalho foi desenvolvido a partir da aplicação de dois experimentos elaborados para investigar a influência das cores e dos hábitos alimentares na autopercepção dos sabores em adolescentes (12-18 anos), separados em grupos autodeclarados de meninos (n=30) e de meninas (n=30). A divisão dos participantes entre hábitos alimentares saudáveis [HEH, meninos (n=8) e meninas (n=8)] e hábitos alimentares não saudáveis [UEH, meninos (n=22) e meninas (n=22)] foi realizada após preenchimento de questionário baseado nos parâmetros descritos pela Organização Mundial da Saúde para hábitos alimentares saudáveis. No primeiro experimento os participantes tiveram que associar diferentes alimentos com cores padronizadas (vermelho, verde, amarelo, laranja, azul, marrom e sem cor) apresentadas em tubos transparentes, em formulário específico. No segundo experimento os participantes provaram amostras de balas de goma (dimensões de 0,5 x 0,5 x 0,5cm), sem sabor ou preparados com os sabores artificiais (limão, laranja ou morango). As amostras sem sabor ou com sabores poderiam ser apresentadas sem cor (incolor) ou nas cores verde, laranja ou vermelho. Nossos resultados mostraram uma associação maior para os adolescentes masculinos com HEH entre cor/alimento: verde/menta e abacate (21%); laranja/tangerina (21%); amarelo/maracujá (24%); azul/menta (33%); vermelho/cereja (24%); marrom/café (29%); incolor/baunilha (33%). Os adolescentes masculinos com UEH associaram mais frequentemente: verde/abacate (22%); laranja/tangerina (20%); amarelo/maracujá (18%); azul/menta (51%); vermelho/morango (17%); marrom/café (21%); incolor/baunilha (26%). As adolescentes com HEH mostraram maior frequência com as seguintes associações cor/alimento: verde/menta (22%); laranja/tangerina (24%); amarelo/maracujá (15%); azul/menta (22%); vermelho/morango (20%); marrom/café (34%); incolor/menta (29%). As adolescentes com UEH associaram com mais frequência verde/limão (20%); laranja/laranja (22%); amarelo/abacaxi (13%); azul/menta (26%); vermelho/morango (20%); marrom/café (18%); incolor/menta (18%). No experimento 2, nossos resultados mostram que adolescentes do gênero masculino apresentam maiores acertos para as combinações vermelho/morango (HEH, 88%; UEH, 91%), laranja/laranja (HEH, 31%; UEH, 45%), limão/verde (HEH, 38%; UEH, 59%). As balas de goma sem sabor foram as mais difíceis de identificação adolescentes do gênero masculino dos dois grupos (HEH e UEH). Entre os adolescentes do gênero masculino, o maior percentual de acerto no grupo HEH foi para a cor vermelha (56%), porém esse grupo quase não obteve acertos quando da apresentação das outras cores (laranja, 0%; verde, 0%; incolor, 6%). No grupo UEH, a taxa de acerto na cor vermelha foi de 39% e mais uniforme, porém baixa nas outras amostras (laranja, 34%; verde, 23%; incolor, 30%). Os resultados para as adolescentes mostraram uma alta taxa de acerto para o vermelho (HEH, 44%; UEH, 55%). Para as combinações usando o sabor laranja, o maior percentual de acerto foi na cor verde (HEH, 38%; UEH 52%). O sabor limão foi mais facilmente identificado na cor laranja no grupo HEH (50%) e na cor vermelha para as adolescentes com UHE (43%). O uso do incolor promoveu maior taxa de acerto nas adolescentes com HEH e com UEH. As adolescentes com HEH acertaram mais as combinações apresentando a cor laranja (HEH, 63%; UEH, 59%). Nossos resultados mostram que é possível prejudicar a discriminação de sabores pela coloração utilizada na representação de frutas através de uma colorização inadequada, de forma que o conhecimento prévio dos adolescentes sobre as combinações cor/alimento tende a levar a um comprometimento das respostas na discriminação de sabor. Nossos dados mostram ainda o alto grau de erros na identificação dos sabores quando do uso de uma coloração inadequada (quando a cor não fornece uma guia confiável para o sabor), com maior ênfase para os dados obtidos com adolescentes do gênero masculino de UEH e independentemente dos hábitos alimentares para adolescentes do gênero feminino.

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