Hoje, no ABEC MEETING 2022 – encontro acadêmico promovido pela Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) -, tive a oportunidade de apresentar a comunicação “Uso de vídeo abstract para o aumento do alcance e do engajamento por periódicos científicos“, de autoria minha em parceria com Alfred Sholl-Franco. São resultados parciais e promissores de uma pesquisa em andamento, sobre a convergência entre audiovisual e periodismo científico. Foi excelente a oportunidade de troca com outros pesquisadores/editores deste segmento.
Resumo expandido:
ARANHA, Glaucio; SHOLL-FRANCO, Alfred. Uso de vídeo abstract para o aumento do alcance e do engajamento por periódicos científicos. ABEC MEETING 2022. 2022. Online. Disponível em: https://doi.org/10.21452/abecmeeting2022.154
Uso de vídeo abstract para o aumento do alcance e do engajamento por periódicos científicos
GLAUCIO ARANHA – Laboratório de Vídeo Educativo (LVE), Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e ALFRED SHOLL-FRANCO – Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências (NUDCEN), Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
1 Introdução
A possibilidade de uso do formato audiovisual pelo periodismo científico na confecção de resumos/abstracts já era um tema pautado em discussões acadêmicas e editoriais na década de 1990 (LIENHAT, PFEIFFER e EFFELSBERG, 1997). Entretanto, em termos de práxis editorial, os video abstracts (VA) foram publicados pela primeira vez apenas em 2009 (BERKOWITZ, 2013) e só começaram a ser pontualmente implementados nas últimas duas décadas (COCCETTA, 2020). Trata-se de uma espécie de interseção entre a lógica de difusão de produtos culturais na internet, a publicação de artigos em periódicos acadêmicos e o paradigma das práticas de leitura das novas gerações. Esses VA apresentam resumos em formato de vídeo ponto a ponto (peer-to-peer), com cerca de três a cinco minutos de duração, referindo-se a trabalhos acadêmicos.
Busca-se, aqui, refletir, de modo exploratório sobre esta nova mídia e como ela impacta sobre as práticas editoriais dos periódicos científicos. Embora periódicos de indubitável credibilidade, como Nature e Science possuam canais no YouTube, nos quais divulgam, entre outros conteúdos audiovisuais, materiais de apresentação de artigos por eles publicados, os chamados VA não se confundem com este tipo de divulgação. Trata-se de um gênero textual específico (COCCETTA, 2020), uma forma complementar de material que deve ser produzido pelos autores e submetidos, em geral, juntamente com o texto a ser avaliado (SPICER, 2014). Obviamente, cumpre a função de auxiliar na divulgação do próprio material de referência, mas destaca-se por se constituir como um gênero de texto científico autônomo. Scott Spicer (2014) destaca que os VA representam uma evolução natural da comunicação científica se adaptando aos ambientes multimodais.
2 Metodologia
Apresentamos aqui um estudo de caso sobre o uso de VA por um periódico científico como formato expandido das publicações regulares (artigos). Para a realização da presente análise, foi selecionado um periódico que preenchia os seguintes critérios: a) critério de relevância acadêmica – existência de SJR ≥ 0,5; h-index ≥ 100; Impact Score ≥ 1,00; b) critério de experiência com VA – periódico com adoção do formato, de forma regular e contínua, há pelo menos 10 (dez) anos; c) critério de criticidade – periódico que apresentasse claramente as políticas editoriais, incluindo revisão por pares, e orientações em relação ao VA; e, por fim, ser um open-acess journal.
Para a busca de periódicos, partiu-se da lista QUALIS/Sucupira, quadriênio 2013-2016, extrato A1. A partir da listagem, visitou-se o site de todos os periódicos que apresentavam versão online para verificação acerca do aceite ou não de formatos videográficos. Para os resultados obtidos, que aceitavam formatos videográficos, foram aplicados os critérios de inclusão e exclusão.
Foram excluídos os periódicos cuja publicação de VA não estava explicitamente descrita nas orientações aos autores ou que não faziam referência explícita a orientações editoriais para a confecção dos VA.
Por fim, chegou-se ao periódico NJP – New Journal of Physics, que atendia a todos os critérios mínimos estabelecidos, além de preencher os demais critérios adotados:
3 Resultados e discussão
O NJP publica artigos em formato digital (html/pdf), sendo os VAdisponibilizados no canal do YouTube NJP – New Journal of Physics[1]. O início do uso desse canal se deu em 22 de agosto de 2011, tendo, até a data da escrita do presente trabalho, mais de 1,51 mil inscritos e 342.285 visualizações[2].
Na apresentação do canal, o periódico expõe a visão editorial em relação aos VA, apresentando-os como um novo fluxo de conteúdo do NJP, disponibilizado com o fim de maximizar a visibilidade dos autores e seus trabalhos, fornecendo uma experiência de inovação para o usuário, explicitamente entendido como um público global (global audience).
O periódico estabelece normativas para a produção e publicação dos VA, a saber: 1) duração máxima de 4 (quatro) minutos; 2) conteúdo introdutório ao assunto do artigo de referência, destacando os principais resultados e conclusões, bem como discutindo o potencial para desdobramentos futuros do trabalho no campo temático do periódico; 3) uso de linguagem clara e acessível a leitores de variados campos do conhecimento; 4) permissão e encorajamento para a inclusão de materiais adicionais ao artigo de referência (imagens, animações, filmagens de laboratório etc.); 5) uso de narração sobre o conteúdo apresentado visualmente; 6) proibição do uso de texto escrito com fontes pequenas; 7) uso de transcrição do conteúdo em áudio no formado escrito (legendas); 8) proibição do uso de trilha sonora, por questões de possíveis conflitos envolvendo direitos autorais; 9) concordância dos autores em seguir as mesmas diretrizes (políticas editorais) aplicáveis ao artigo escrito em relação aos VA.
Observa-se, neste caso, que a prática difere do uso de vídeos produzidos pelo próprio periódico, como acontece com os vídeos nos canais da Nature e Science. Na NJP, os VA devem ser confeccionados e submetidos pelos próprios autores, como material complementar e alternativo.
Inobstante tais orientações, ao analisar os conteúdos audiovisuais postados deparamo-nos com variadas ocorrências que desviam das orientações dadas, bem como uma série de práticas que sugerem o despreparo técnico em relação às especificidades relacionadas com a produção e distribuição audiovisual, em relação às quais nos deteremos a seguir. Isto pode se dar em virtude do fato de que os autores, geralmente, dominam a estilística de gêneros textuais já consolidados no periodismo científico, mas a inclusão de uma nova mídia importaria na necessidade de um processo de letramento midiático para o uso (leitura) e a escrita (produção) em um novo gênero.
Victor Valdéz e José Martínez (2012) entendem haver algumas especificidades particulares aos VA, que os diferem de gêneros textuais como abstracts escritos, artigos, revisões etc. Referem-se a um processo composicional e de leitura que combinam técnicas de segmentação de histórias on-line, técnicas de skimming de vídeo on-line e composição de layout. Tais aspectos demandam a capacitação técnica tanto dos autores, para atender às demandas específicas, quanto da equipe editorial, possivelmente com a criação de agentes específicos capazes de avaliar a qualidade dos VA submetidos. Embora este desafio represente um obstáculo, vencê-lo pode significar a entrada em um universo muito mais amplo de leitores, citações e repercussão (impacto) de um periódico.
Voltando aos aspectos técnicos dos vídeos da NJP, observa-se que os critérios editoriais requerem que os VA tenham duração de até 4 minutos; entre 25–30 frames por segundo; proporção de 16:9 ou 4:3, pixels quadrado, desentrelaçados; tamanho de quadro (mínimo) 320 × 240 pixels; formatos .mov, .mpg, ou .mp45; Codec de vídeo: H.264, mp2, mp4; codificação de vídeo, preferencialmente, de 2 pass H.264; Keyframe de pelo menos 6 segundos; Taxa de bits de vídeo de 480–2672 kbps; Taxa de bits de áudio de 16-bit AAC com uma frequência de amostragem de 44.1 kHz; Taxa de bits de 192 kbps; e tamanho máximo de 100 MB.
Este tipo de orientação apresenta dois pontos problemáticos: a) parte do pressuposto de que os autores (geralmente cientistas) dominam técnicas de edição e formatação de vídeo; e b) prescrevem parâmetros para um produto que tende à rápida obsolescência, por conta da baixa qualidade final, em termos de produção audiovisual contemporânea.
Comparando, todavia, as descrições técnicas do guideline com os VA efetivamente publicados, nota-se certa inconsistência, tendo em vista não haver uma regularidade entre os critérios descritos pela NJP e os arquivos efetivamente disponibilizados. É possível encontrar na grade, VA com variadas resoluções (de 1080 pixels (HD) a 420 pixels). Percebe-se, portanto, tal como descrito por Jianxin Liu (2021), a existência de inconsistência entre o propósito dos VA e as orientações editoriais (guidelines), pois se por um lado objetiva-se padronizar a melhor produção e distribuição de VA, por outro várias diretrizes para os autores engessam e padronizam os requisitos técnicos por baixo. Inobstante tal fato, falta também informações sobre os canais de retransmissão.
Os VA são apresentados na grade do canal sem uma sistematização clara. Até este momento, os VA estavam organizados nos seguintes agrupamentos na página de entrada: Recent sends; Highlights of 2016; Fast Track Communications; Highlights of 2015; Highlights of 2014; Sucessefull sends; e Created Playlists. Do ponto de vista comunicativo, falta à grade uma adequada sistematização e indexação do conteúdo. É possível observar, por exemplo, a descontinuidade da segmentação dos highlights, que fariam mais sentido comunicacional se estivessem segmentados ano a ano no rol das playlists até os VA de 2022 e não na grade, ocupando o espaço de publicações mais recentes, e sem uma clara continuidade cronológica.
No tocante à identidade visual, falta também coesão visual que possa conferir ao canal um reconhecimento de marca pelo público. Este aspecto é importante para a promoção da aproximação e do engajamento dos usuários. As capas dos vídeos são aleatórias, não havendo unidade visual, indicando o uso da coleta automática da plataforma YouTube, no lugar de um planejamento integrado da comunicação visual. A organização das playlists esbarram nestas mesmas dificuldades comunicacionais e de gestão comunicativa.
4 Considerações finais
A análise deste caso nos permite perceber que mesmo com a emergência de novos paradigmas, novos gêneros de comunicação científica e novas linguagens, as práticas editoriais ainda estão apegadas ao paradigma do impresso, o que pode dificultar a distribuição, a visibilidade e a ampliação de público, especialmente em uma sociedade globalizada.
Referências
BERKOWITZ Jacob. Video abstracts, the latest trend in scientific publishing. Will ‘publish or perish’ soon include ‘video or vanish’? University Affairs [online], 2013 Disponível em: http://www.universityaffairs.ca/features/feature-article/video-abstracts-the-latest-trend-in-scientific-publishing Acesso em: 26/08/2022.
COCCETTA, Francesca. A corpus-based approach to the analysis of the video abstract. A phase-based model. Lingue e Linguaggi, v. 40, dezembro, pp. 45-65, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1285/i22390359v40p45 Acesso em: 26/08/2022.
LIENHAT, Rainer, PFEIFFER, Silvia, e EFFELSBERG, Wolfgang. Video abstracting. Communications of the ACM, v. 40, n. 12, dezembro, p. 54-62, 1997. Disponível em: https://doi.org/10.1145/265563.265572 Acesso em: 26/08/2022.
LIU, Jianxin. Video or perish? An analysis of video abstract author guidelines. Journal of Librarianship and Information Science, v. 54, n. 2, p. 230–238, 2022.
SPICER, Scott. Exploring Video Abstracts in Science Journals: An Overview and Case Study, Journal of Librarianship and Scholarly Communication, v. 2, n. 2, p.eP1110, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.7710/2162-3309.1110 Acesso em: 26/08/2022.
VALDÉS, Víctor, MARTÍNEZ, José M. On-line video abstract generation of multimedia news. Multimed Tools Appl., v. 59, p. 795–832, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11042-011-0774-5 Acesso em: 26/08/2022.
| Autores: |
| Glaucio Aranha Rio de Janeiro, RJ, Brasil Laboratório de Vídeo Educativo (LVE), Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Minicurrículo: Professor adjunto e pesquisador, atuando no Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES/UFRJ) e no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde (PPGECS/NUTES/UFRJ – conceito Capes 6). Pesquisador no grupo de pesquisa GERAES – Grupo de Estudos de Recepção Audiovisual em Educação em Ciências e Saúde (NUTES/UFRJ; CNPq); Pesquisador-líder do grupo de pesquisa Narrativas, produção de sentido e representações da realidade (OCC; CNPq); e do grupo de Pesquisa Neuroeduc – Neurociências Aplicadas à Educação (UFRJ; CNPq). Editor-chefe do periódico Ciências & Cognição (ISSN 1806-5821). Doutor em Letras (UFF); mestre em Comunicação, Imagem e Informação (UFF); especialista em Gestão de Comunicação integrada (UNILEYA), graduado em Direito (UFJF) Possui pós-doutorado em Biofísica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contribuição de autoria: ambos os autores contribuíram colaborativamente em todas as fases. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-5792-5560 Lattes: http://lattes.cnpq.br/ 1047823602449101 E-mail: glaucioaranha@ufrj.br |
| Alfred Sholl-Franco Rio de Janeiro, RJ, Brasil Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências (NUDCEN), Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Minicurrículo: Professor Associado I e Pesquisador, atuando no Programa de Neurobiologia do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF/UFRJ) como coordenador do Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências (NuDCEN/IBCCF) e pesquisador associado ao Laboratório de Neurogênese (IBCCF, UFRJ). Membro permanente das Pós-Graduações da UFRJ em Ciências Biológicas (Biofísica – conceito Capes 7), MP-PROFICIÊNCIAS (conceito Capes 4) e MP-EGeD (conceito Capes 4) e da Pós-Graduação da UFF em Diversidade e Inclusão (CMPDI – Conceito Capes 5). Dedica-se à Pesquisa Básica em desenvolvimento do sistema nervoso e Pesquisa Aplicada Translacional em Processos de Ensino e Aprendizagem e em Neuroeducação, nas áreas de corporeidade, aprendizado, distúrbios da aprendizagem, narrativa, alfabetização, artes e inclusão. Tem experiência nas áreas de Neurociências, Neuroeducação, Divulgação Científica e Editoração Eletrônica. Pesquisador-líder do Grupo de Pesquisa NEUROEDUC – Neurociências Aplicadas à Educação (UFRJ; CNPq) e do Grupo de Pesquisa NEUROIMUNO (UFRJ; CNPq). Editor-Chefe da revista científica “Ciências & Cognição” (ISSN 1806-5821). Doutor e Mestre em Ciências Biológicas/Biofísica (UFRJ); Especialista em Neurobiologia (UFF), graduado em Ciências Biológicas (FAMATH). Contribuição de autoria: ambos os autores contribuíram colaborativamente em todas as fases. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-1951-0137 Lattes: http://lattes.cnpq.br/0916043592067664 E-mail: asholl@biof.ufrj.br |
[1] https://www.youtube.com/user/NewJournalofPhysics
[2] https://www.youtube.com/user/NewJournalofPhysics/about

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