Glaucio Aranha*

Os debates em torno do tema “inovação” vem agitando diferentes áreas nas mais diversas formações institucionais. O campo da educação não passa incólume a esses debates. Entretanto, esse é um tema complexo, pois abraça diferentes conceituações, tipologias e contextos, dependendo da área em que está sendo aplicada.

Atualmente, encontramos variados tipos de estudos que podemos trazer para dialogar com o campo da educação e do ensino. O Dr. Brooke Dobni (2008) desenvolveu estudos no sentido de avaliar as características dos ambientes propícios à inovação. Seu objetivo foi identificar aspectos culturais que favoreciam o aparecimento de ideias inovadoras, considerando que um dos pontos de inquietação em muitas instituições diz respeito ao fato de que grande parte delas não possuem claramente uma análise e identificação clara dos valores, das crenças e dos padrões de comportamentos que orientam as suas decisões, posicionamentos e estratégias (Martins e Martins, 2002. Isso diz respeito à necessidade de que uma instituição educacional precisa ter claramente uma percepção não só do seu fim imediato, mas também da complexidade de seus componentes (docentes, discentes, gestores e colaboradores) para que possa avaliar que tipos de cenários de inovação são demandados e viáveis naquela instituição.

Nesse sentido, a Cultura da Inovação pode ser entendida como uma forma de enxergar os processos internos e externos de uma instituição. Mais do que ter novas ideias, a Cultura da Inovação é um processo de internalização da importância do pensamento inovador por todos os agentes da instituição, bem como do valor que a inovação tem para cada um desses agentes. Trata-se de um consenso daquela comunidade em torno do que representa a inovação para os integrantes dessa comunidade.

Steele e Murray (2004) destacam que a Cultura da Inovação em uma instituição contribui para a agilidade e habilidade dessa instituição para responder às mudanças dos cenários políticos, econômicos e culturais. Nesse sentido, a cultura da inovação contribui para resiliência daquela comunidade de ensino. Isso, todavia, passa pela necessária abertura para processos de seleção de ideias, retenção e valorização das pessoas inovadoras (Steele & Murray, 2004) etc.

O interesse em analisar a Cultura de Inovação tem aumentado bastante (Dobni, 2008), apresentando-se como um elemento chave para o desenvolvimento de ambientes que propiciem e estimulem a criatividade e a inovação. A criação de uma cultura de inovação contribui para o desempenho da própria instituição de ensino, por gerar um senso de pertencimento, acolhimento à criatividade e estímulo à produção de conhecimento.

Kaasa e Vadi (2010) observam que a força da tradição pode muitas vezes configurar um obstáculo à inovação, entretanto isso não é uma regra. Mesmo institucionais mais tradicionais podem fomentar a cultura da inovação alinhada com seus valores mais arraigados. Para isso, é importante identificar qual é o tipo de inovação que se ajusta melhor a cada perfil institucional.

Há variados tipos de inovação, por exemplo, em apertada síntese:

  • Inovação disruptiva: é aquela que promove um rompimento de paradigmas, promovendo grandes transformações ou a criação de processos, produtos ou sistemas inovadores;
  • Inovação arquitetural: é aquela associada à quebra de um modelo e à aquisição de novas competências, novas tecnologias ou sistemas;
  • Inovação incremental: é aquela que apresenta pequenas melhorias a processos, produtos ou sistemas existentes;
  • Inovação radical: é aquela que demanda tecnologias novas ou o desenvolvimento de uma inovação secundária para que possa ser implementada.

A construção de uma cultura de inovação nas instituição de educação e ensino afeta os padrões e formas como os indivíduos que compõem aquela comunidade lidam com os processos e produtos que envolvem certa alteração (maior ou menor) das práticas e vivências construídas naquela instituição.

Para fomentar a construção da cultura é essencial que os agentes envolvidos contemplem espaços criativos e de inovação para todos os segmentos, valorizando iniciativas individuais e coletivas, promovendo debate, evidenciando os casos de sucesso naquela instituição ou mesmo contribuições para a inovação oriundas de algum dos polos envolvidos. A evidenciação de uma melhoria é implementada por um aluno, pai, colaborador é tão importante quanto uma ideia inovadora vinda de discentes e da gestão. Criar uma cultura de inovação é criar espaços de falar, ouvir e fazer nas instituições.

Referências

Dobni, C. B. (2008). Measuring innovation culture in organizations: the development of a generalized innovation culture construct using exploratory factor analysis. European Journal of Innovation Management, 11(4), 539-559. doi: 10.1108/14601060810911156
» https://doi.org/10.1108/14601060810911156

Martins, E., & Martins, N. (2002). An organizational culture model to promote creativity and innovation. Journal of Industrial Psychology, 28(4), 58-65.

Steele, J., & Murray, M. (2004). Creating, supporting and sustaining a culture of innovation. Engineeering, Construction and Architectural Management, 11(5), 316-322. doi: 10.1108/09699980410558502
» https://doi.org/10.1108/09699980410558502

Glaucio Aranha – Professor adjunto no Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atuando no Laboratório de Vídeo Educativo (LVE). É pesquisador-líder do grupo de pesquisa Estudos de Linguagem, Imaginário e Tecnologias Exponenciais, e é colíder, em parceria com o Prof. Dr. Alfred Sholl-Franco (IBCCF/UFRJ), do grupo de pesquisa Neuroeduc – Neurociências Aplicadas à Educação (OCC/UFRJ). Coordena o projeto de extensão Redeneuro: rede de estudos em neuroeducação com foco no uso de metodologias ativas no ensino de saúde e na divulgação científica. É pesquisador associado do programa Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências, da UFRJ (NuDCEN/IBCCF/UFRJ), onde desenvolve estudos sobre semiótica cognitiva e linguística cognitiva.


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