1.

É impossível conhecer o Estrangeiro.

Este ente que não é o outro,

mas o abismo do que eu não sou.

Não saio de mim,

mesmo que queira,

mesmo que tente,

posto

que

sou.

É impossível conhecer o estrangeiro

sem querer mudá-lo,

sem querer moldá-lo

com o que trazemos.

2.

Sou de onde?

Do ontem?

Estrangeiro em mim.

Quem fui, não sei.

No amanhã,

o estrangeiro de mim,

sem visto.

Só sei-me sendo.

Sêmen.

Em cada amanhã,

mora um filho de  hoje.

Derivação de mim,

mas outro.

Um alguém tatuado como o amanhecer.

Sou de longe,

pois a proximidade de Mim me afasta.

3.

Há uma certa ausência em mim:

uma indolência de Sombra,

um outro, um eterno rebento.

[“Estrangeiro”, 2017. In: Aranha, Glaucio. A sensação de não estar no todo. Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2025.]


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