Lia, para mim, era um mistério sem cheiro definido, com múltiplos e cambiantes perfumes.Lembro que, na primeira vez que se aproximou, ela era cítrica. A voz enchendo o espaço num orgasmo de risos. Exuberante, ela esculpia entonações: um “bom dia” liso para todos, um macio “minha fofa” para a velha Bebel, um impudico “está gostoso hoje” para Paulo e um anorexo silêncio diante de mim.
Era um silêncio repleto de aroma cítrico. Um silêncio de quem estanca subitamente o desfile de passos rápidos. A voz bailarina com amnésia de movimento: ora com desejo de recuar, ora com ares de ir adiante e pondo em espasmos meus pêlos, parando diante de mim.
– Meu Deus, que homem é esse?
– Não estou vendo homem nenhum por aqui. – disse eu com a gaiatice dos cegos bem-humorados. – “Nem mulher”.
Ela, então, segurou morna meu pulso como se invadisse minha calça.
– Não? – disse ela com voz adocicada de champagne. Congelei meu corpo para não mostrar minha falta de… Encurralado.
– Eu sou a Lia. Já falaram mal a meu respeito para você?
Era constrangedor. Eu ouvia sua voz falar uma coisa e sua pele outra. Era um movimento de seda que ardia como um grito.
– Eu sou o Guilherme. Hã, meu nome é Guilherme.
A voz de Bebel soou ao longe.
– Lia, o rapaz está vermelho e isso porque não pode te ver.
Vermelho para mim era sinônimo de verão, ardência e batimentos acelerados.
– Vai parecer que me visto como uma puta.
– Ai, Lia, não é nada disso. – disse Bebel despreocupada.
Para mim, era uma música com brisa na pele quente.
[“Sinergia – Parte 1”, Glaucio Aranha, 2016]

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