Pratico agora esta arte dos cacos,
com o espólio cortante de nós.
Amarras do tempo perdido:
estilhaços, memórias partidas,
promessas quebradas,
olhares opacos —
uma constelação em pedaços
no chão gasto do peito.
Manipulo fragmentos imune às arestas.
A pele curtida no tempo.
Crio um vitral mais brilhante do que foi:
um gesto, uma palavra,
um surto ou gargalhada,
pedaços, rastros de nós dois;
remendo ora com cola de luto, ora de glória.
Talvez crie uma paisagem, talvez natureza morta.
Quem sabe uma árvore torta,
um sol vítreo que não aquece,
ou um mar raso que em pedras se esvanece?
Uma tela de expurgo pra um leitor inexistente.
Narrativa recortada travestida de poesia,
sutilmente emoldurada com alívio e ironia.
Cada caco, um capítulo,
uma verdade que corta.
Eu, o artista dos restos,
o escultor da ruína.
Não há épica ou tragédia.
Só um vazio que assovia pela praia.
Imagens ainda belas
brilhando no espaço escuro.
Grafite infértil no muro,
pra quem passa em cada página.
Distraído o transeunte,
pode achar original
aquela colcha cosida com um toque ancestral;
não existe dor inédita.
Às vezes sangro,
emulando o mênstruo –
essa depuração da vida que não se fez.
Às vezes choro, não pelo cadáver;
mas pelo orgulho ferido de saber-se cego, qual Édipo com olhos vazados.
Refaço passos sem refazer-me,
pois em cada estilhaço reencontro
o meu velho cinismo dizendo ‘eu te disse”.
[Mosaico de caos, In:
Aranha, Glaucio. A sensação de não estar no todo. Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2015]
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