Foi-se,
e na lâmina cega do tempo,
restou-me um campo ceifado pra reconstrução,
os talos tombados de meus desejos,
as espigas marcadas de vazios.

Foice!
Foi o abraço curvado que nunca enlacei,
o toque que tangi em volutas de sombra,
o beijo embainhado em palavras cortantes,
promessas murchas em preces errantes.

E foi também o tempo
em que o tempo não era,
em que se jogavam palavras ao vento
em trincheiras de espera.
Foi a música sussurrada em ouro,
desfeita em toques
de nada,
de nunca,
de quase.

Foice que foi e que vai
em círculos severos, cortando-me o eco,
despindo-me do manto de meu autoengano.
Foi-se o amparo do espelho
que refletia a miragem de uma vida.
Foi-se a trama de afetos fingidos,
cada fio arrancado ao rumor do estilhaço.

E o que ficou?
Ficou o rastro do corte,
a dança vertiginosa das folhas,
o campo, agora aberto,
despido dos fantasmas,
disponível ao plantio de incertezas.

Que sejam daninhas, que sejam!
De raízes retorcidas,
de espinhos oblíquos,
que desafiem mãos famintas.
Pois o que foi, foice.
E se a dor é chaga e farsa,
há de se fazer poema.

Eis-me com os pés na terra nua,
pisando o pó da memória;
o peso da ausência inglória
é o adubo do que há de ser.

Que cresçam novas ilusões,
lírios negros, rosas de fogo.
Que se desvele verdade e engodo,
diante de meu novo olhar.
Pois o que foi,
já não me será.

E no fio que restou do nada,
o verso refaz,
com lâmina da alma,
o que foi-se e o que virá.

[O que foi, foice, 2014 –

Aranha, Glaucio. A sensação de não estar no todo. Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2015]


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